quinta-feira, 18 de março de 2010

Chamado - uma escuta silenciosa

Em nossos dias temos muita dificuldade para entender o que significa chamado, principalmente quando nos referimos a uma vida agitada das grandes cidades. Neste ambiente, muitas coisas dificultam o silêncio interior do ser humano, a saber, os ruídos sonoros, a poluição visual ou outras coisas que nos dispersam no dia-a-dia.

Neste pequeno ensaio sobre o chamado, quero focar justamente o sentido desta palavra quando a usamos no português, já que o termo vocação, do latim Vocare (chamar) hoje se esvaziou, por ser usado para tantas coisas. Por exemplo, faz-se grande confusão entre profissão e vocação. Muitas pessoas confundem habilidade técnica com vocação-para. Por isso, o verbo chamar deseja expressar uma escuta silenciosa de alguém que emite um bom som, sendo que nesta escuta silenciosa, nasce um desejo interior de livremente responder, e esta resposta independe das habilidades técnicas, pois o chamado que Deus nos faz já conta de antemão com o todo que nós somos.

Assim sendo, podemos compreender o que a experiência bíblica quer nos ensinar quando usa o termo chamado/vocação. Nesta experiência existe um emissor e um receptor. O emissor diz aquilo que deseja transmitir, o receptor escuta atentamente. Outro detalhe: o receptor é chamado pelo seu nome, isto é, na sua particularidade, naquilo que ele é.
Para explicitar isto que falamos tomemos por base o texto de Jr 1, 4-8:

Recebi a palavra de Javé que me dizia: “antes de formar você no ventre de sua mãe, eu o conheci; antes que você fosse dado à luz, eu o consagrei, para fazer de você profeta das nações”. Mas eu respondi: “Ah, Senhor Javé, eu não sei falar, porque sou jovem”. Javé, porém, me disse: “não diga ‘sou jovem’, porque você irá para aqueles a quem eu o mandar e anunciará aquilo que eu lhe ordenar. Não tenha medo deles, pois eu estou com você para protegê-lo – oráculo de Javé.

O relato nos diz que o Senhor mostra seu objetivo a Jeremias e nas suas palavras o Senhor expressa que o conhecia já bem antes do ventre de sua mãe. Em seguida diz que o chamou para ser profeta das nações.

Ninguém é chamado do nada e para nada. O emissor deixa claro o que deseja transmitir e o receptor decide se deve executar ou não, dentro da sua liberdade. Este chamado independe de habilidades e competências que foram adquiridas pelos anos, pois o Senhor que chama conta de antemão com tudo aquilo que somos. Por isso, um instante de silêncio diário nunca é demais para meditar no chamado que Deus nos faz constantemente em nossa vida.
Desta forma, procuramos nas nossas comunidades intensificar cada vez mais os nossos encontros vocacionais, para que melhor possamos auscultar qual o chamado que Deus nos faz constantemente neste mundo tão agitado e disperso.
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Frei Arnaldo Aragão Bastos OFMConv

sábado, 13 de fevereiro de 2010

À intuição de São Francisco

Uma questão, que na minha reles opinião, precisa ser discutida é a relação entre o nome de franciscanos ou frades menores: o que somos? que valores cultivamos? para onde queremos ir? qual nossa identidade? o que muda isso em nossa vida? como nos apresentamos?
Penso eu que, se apenas nos denominamos de franciscanos, no fundo da expressão estamos afirmando que seguimos uma idéia elaborada por um homem muito santo chamado Francisco. Isso, logicamente não causa problema algum. Mas o que dá sentido a nossa vocação não é tanto o homem Francisco, mas sua intuição que marcou a história. E segundo a intuição de Francisco de Assis, para ele e para toda "sua" Ordem, é que nos chamássemos frades menores. Seguir uma intuição exige que nos identifiquemos não com a pessoa, mas com o próprio Autor da intuição. Isso dá sentido à vida. À intuição não se planeja tê-la, mas vem sem que se espere, acontece, não por um acaso, entretanto, exige trabalho de busca, espera-se, pacientemente, sem saber ao certo se virá.
Essa afirmação não quer eximir da identificação que se faz com a pessoa, que antropologicamente falando, é muito necessário na formação existencial do ser humano, mas o salto para uma realidade mais substanciosa precisa ser feito, pois assim encontramos consistência para a vocação (traduza "vocação" para "vida", como um todo-pleno)
Ser irmão e ser menor marca nossa existência no mundo, na Igreja, na sociedade, na vida de cada pessoa e na vida pessoal do frade seguidor de Jesus, o Cristo. Essa é nossa identidade, nossa presença, nossa significatividade (frei Agostinho Gardin).
Partir desse ponto de vista muda nossa vida. Como afirmou o mestre L. Boff (pelo menos foi dele que vi esta expressão), "todo ponto de vista é a vista de um ponto". Tudo bem, quando nos apresentamos como franciscanos algo muda até na expressão facial das pessoas (não tanto pela pessoa do franciscano, mas muito mais por São Francisco), contudo, devemos nos resguardar do perigo da vaidade a que São Francisco mesmo alertou: do que nos adianta nos vangloriar por relatar da vida de outros santos enquanto não nos importamos de fazer o próprio caminho de radicalidade? Para mim, a expressão franciscano evoca essa realidade... Acima de tudo somos irmãos menores e assim devemos viver, ser e fazer no mundo!
Sugestão: porque não nos apresentarmos daqui para frente como frades menores franciscanos (capuchinhos, observantes ou conventuais)?
Ao leitor peço perdão pela simploriedade da argumentação, das ideias e da problemática proposta. Mas a vida é feita dessas coisas também!
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MDT

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Quando tudo passa

Enquanto existir força vivente
Lutar sem desistir

Se for coerente
Não se contentar em apenas assistir

O protagonismo na história
Ficar na memória

Eternizar
Amorizar

Quanta coisa difícil
Vamos com simplicidade olhando
Amando
Porque sem sentir?
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MDT

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

BBB 10 em versos de cordel‏: "Big Brother Brasil, um programa imbecil"

Autor: Antônio Barreto


Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão

Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.

Cuidado, Pedro Bial,
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.

Respeite, Pedro Bienal,
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dá muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.

Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

(...)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Depoimento de um soldado recentemente chegado ao Haiti.

Recebi por e-mail este comunicado de meu amigo que no último dia 29 de janeiro embarcou para o Haiti.

"Porto Príncipe, 31 de janeiro de 2010.

Caro irmão em Cristo, Paz e Bem. (Pax et Bonum)

Comunico-te a minha chegada no Haiti. Jamais os filmes Americanos poderão ou conseguirão retratar a megalomaníaca estrutura bélica que aqui se encontra. São centenas de viaturas militares, dezenas de aviões, dezenas de helicópteros, que não param um minuto, um porta aviões, navios militiares de grande porte, dezenas de Hospitais de Campanha espalhados por toda parte, milhares de soldados, quilometros e quilometros de instalações improvisadas com acampamentos para o efetivo militar. Existe mais de 20 países apoiando os trabalhos. Os Americanos se destacam! Tenho que adimitir. E os brasileiros são os mais queridos e amados por todos. Toda essa estrutura está no aeroporto do Haiti. Existe também quilometros e quilometros de suprimento para a população haitiana. A ONU coordena todos os trabalhos com o Exército Brasileiro. Os haitianos amam os soldados brasileiros, amam o Brasil. Demostram carinho, nos abanam e nos acenam com um: Ok, Brésil! Ame au Brésil! Aqui faz muito calor, e o Sol é escaldante. E a diferença de fuso horário são de três horas a menos. O céu é muito claro e azul, e tudo é pintado de cor branca, cor da ONU. Existem britas brancas no chão. Assim chega a machucar a vista pela claridade, o óculos escuro é essencial. Nossas instalações, na Base de Engenharia, são as melhores que existem. Estamos em containers. Peço que rezem por mim e por toda essa população tão carente de tudo! E como padre que serás, peço que fales sempre bem das Forças Armadas, do Exército Brasileiro, porque não tem preço que pague o que estamos vendo e fazendo por esses nossos irmãos em Cristo. Fico muito emocionado com tudo que vejo. Não dá pra conter uma lágrima e outra no meio de tanta calamidade, sofrimento, dor e angústia.

No Amor do Teu Amor. (Amor Amoris tuo)

Rezem, rezem e rezem. (Ora et Ora et Ora)"

Peterson Colling.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

No Natal Deus se inclina a nós

“Quem se compara ao Senhor, nosso Deus, que tem o seu trono nas alturas e Se inclina lá do alto a olhar os céus e a terra?”
Assim canta Israel num dos seus Salmos (113/112, 5s.), onde exalta simultaneamente a grandeza de Deus e sua benigna proximidade dos homens. Deus habita nas alturas, mas inclina-Se para baixo… Deus é imensamente grande e está incomparavelmente acima de nós. Esta é a primeira experiência do homem.
A distância parece infinita. O Criador do universo, Aquele que tudo guia, está muito longe de nós: assim parece ao início. Mas depois vem a experiência surpreendente: Aquele que não é comparável a ninguém, que «está sentado nas alturas», Ele olha para baixo. Inclina-se para baixo. Ele vê-nos a nós, e vê-me a mim. Este olhar de Deus para baixo é mais do que um olhar lá das alturas. O olhar de Deus é um agir. O fato de Ele me ver, me olhar, transforma-me a mim e o mundo ao meu redor. Por isso logo a seguir diz o Salmo: «Levanta o pobre da miséria…» Com o seu olhar para baixo, Ele levanta-me, toma-me benignamente pela mão e ajuda-me, a mim próprio, a subir de baixo para as alturas.
“Deus inclina-Se”. Esta é uma palavra profética; e, na noite de Belém, adquiriu um significado completamente novo. O inclinar-Se de Deus assumiu um realismo inaudito, antes inimaginável. Ele inclina-Se: desce, Ele mesmo, como criança na miséria do curral, símbolo de toda a necessidade e estado de abandono dos homens. Deus desce realmente. Torna-Se criança, colocando-Se na condição de dependência total, própria de um ser humano recém-nascido. O Criador que tudo sustenta nas suas mãos, de Quem todos nós dependemos, faz-Se pequeno e necessitado do amor humano. Deus está no curral.
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Bento XVI: homilia da noite de natal de 2008

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A GRAÇA DO PERDÃO

A matéria prima da criação é o amor. Quando a Trindade transbordou o amor entre Eles, o mundo foi criado. No centro dessa criação, encontra-se a pessoa humana, excelência desse amor criacional. Criados no amor, para o amor. Qualquer tentativa de viver à margem desse amor é uma descaracterização da pessoalidade. Amar é a condição de ser. Podemos fazer tudo, como nos lembra São Paulo, mas se não tivermos o amor de nada seria ou valeria. O amor tudo crê, tudo espera, tudo suporta, tudo alcança. Não é rancoroso, nem se encoleriza, não sente inveja ou se envaidece. Lembra-nos o Cântico dos cânticos, águas torrenciais jamais apagarão amor, nem rios poderão afogá-lo. Por isso, São João vai dizer: quem não ama, não conhece a Deus porque Deus é Amor.

Não se pode falar de perdão sem lembrar do pressuposto do amor. Foi para amar que Deus nos criou. O perdão que ofereço, na verdade, é uma prova da minha capacidade de ser melhor. Quem perdoa, é o maior beneficiário do perdão. Por vários motivos: lembra-me a raiz originária do meu ser, recorda-me que o outro é capaz de refazer seus erros, configura-me ao coração amoroso de Jesus, e, o melhor, hominiza-me. E tantos outros benefícios. Acrescente os seus!

Quem sente dificuldade em perdoar, sente dificuldade em amar. Quem não consegue perdoar o outro, tão pouco consegue se perdoar. Perdoar é entrar na dinâmica do amor que se dá, e do amor que se recebe. Amar é movimentar-se, gratuitamente, na direção do outro. Não há expectativa de retorno. Não há frustração caso não haja reciprocidade. Se houver retorno pelo amor que se dá, isto faz bem, ajuda a existir plenamente, mas não se depende do amor retribuído para existir e amar. São Francisco, no século XIII, já intuíra essa verdade: Amar que ser amado!

Perdoar é liberar toda capacidade de amar que guardo dentro de mim e que não me pertence. Meu amor não é meu, é do outro. Perdoar é dizer não ao egocentrismo, que mata as relações humanas. O egocentrismo prejudica as relações, pois vai no sentido inverso da verdadeira fonte de vida: o amor gratuito. Quem cultiva ódio adoece, envelhece precocemente e até se auto-elimina, da forma mais dolorosa. Cientificamente, segundo especialistas, ódio, ressentimento e mágoa provocam aumento da pressão sangüínea, do batimento cardíaco e da tensão nos músculos. Perdoar é mais barato e mais saudável!

Com a palavra, o Mestre do Perdão, Jesus de Nazaré: “Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que estão fazendo!” (Lc 23, 34). Essas palavras foram pronunciadas, por Jesus, quando os pregos dilacerantes lhes rasgavam a carne na hora da crucifixão. Uma dor indescritível foi experimentada por Ele. A dor do abandono, da incompreensão, da rejeição, da calúnia e da difamação, do ódio do coração humano contra Ele, do silêncio absurdo do Pai... Ali, na cruz, na dor, Jesus se desfigurou humanamente, mas não perdeu a imagem do Divino que habitava seu ser. Ele foi capaz de tudo, menos de deixar de amar. Importava, para Jesus, que Ele não perdesse o foco de sua missão e de sua pessoalidade: o amor. Nem a cruz nem a morte foram capazes de arrancar o amor-perdão do Coração de Jesus. Tenhamos os mesmos sentimentos de Cristo e sejamos felizes, mesmo com os percalços e as intempéries que nos sobressaltam. Amar é o melhor remédio para viver bem! A pior raiva é a que se guarda! Não perca tempo, perdoe agora mesmo!
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Frei Mário Sérgio, ofmcap. Cedido por frei Arnaldo Aragão, ofm conv.