Neste pequeno ensaio sobre o chamado, quero focar justamente o sentido desta palavra quando a usamos no português, já que o termo vocação, do latim Vocare (chamar) hoje se esvaziou, por ser usado para tantas coisas. Por exemplo, faz-se grande confusão entre profissão e vocação. Muitas pessoas confundem habilidade técnica com vocação-para. Por isso, o verbo chamar deseja expressar uma escuta silenciosa de alguém que emite um bom som, sendo que nesta escuta silenciosa, nasce um desejo interior de livremente responder, e esta resposta independe das habilidades técnicas, pois o chamado que Deus nos faz já conta de antemão com o todo que nós somos.
Assim sendo, podemos compreender o que a experiência bíblica quer nos ensinar quando usa o termo chamado/vocação. Nesta experiência existe um emissor e um receptor. O emissor diz aquilo que deseja transmitir, o receptor escuta atentamente. Outro detalhe: o receptor é chamado pelo seu nome, isto é, na sua particularidade, naquilo que ele é.
Para explicitar isto que falamos tomemos por base o texto de Jr 1, 4-8:
Recebi a palavra de Javé que me dizia: “antes de formar você no ventre de sua mãe, eu o conheci; antes que você fosse dado à luz, eu o consagrei, para fazer de você profeta das nações”. Mas eu respondi: “Ah, Senhor Javé, eu não sei falar, porque sou jovem”. Javé, porém, me disse: “não diga ‘sou jovem’, porque você irá para aqueles a quem eu o mandar e anunciará aquilo que eu lhe ordenar. Não tenha medo deles, pois eu estou com você para protegê-lo – oráculo de Javé.
O relato nos diz que o Senhor mostra seu objetivo a Jeremias e nas suas palavras o Senhor expressa que o conhecia já bem antes do ventre de sua mãe. Em seguida diz que o chamou para ser profeta das nações.
Ninguém é chamado do nada e para nada. O emissor deixa claro o que deseja transmitir e o receptor decide se deve executar ou não, dentro da sua liberdade. Este chamado independe de habilidades e competências que foram adquiridas pelos anos, pois o Senhor que chama conta de antemão com tudo aquilo que somos. Por isso, um instante de silêncio diário nunca é demais para meditar no chamado que Deus nos faz constantemente em nossa vida.
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Frei Arnaldo Aragão Bastos OFMConv


