sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

No Natal Deus se inclina a nós

“Quem se compara ao Senhor, nosso Deus, que tem o seu trono nas alturas e Se inclina lá do alto a olhar os céus e a terra?”
Assim canta Israel num dos seus Salmos (113/112, 5s.), onde exalta simultaneamente a grandeza de Deus e sua benigna proximidade dos homens. Deus habita nas alturas, mas inclina-Se para baixo… Deus é imensamente grande e está incomparavelmente acima de nós. Esta é a primeira experiência do homem.
A distância parece infinita. O Criador do universo, Aquele que tudo guia, está muito longe de nós: assim parece ao início. Mas depois vem a experiência surpreendente: Aquele que não é comparável a ninguém, que «está sentado nas alturas», Ele olha para baixo. Inclina-se para baixo. Ele vê-nos a nós, e vê-me a mim. Este olhar de Deus para baixo é mais do que um olhar lá das alturas. O olhar de Deus é um agir. O fato de Ele me ver, me olhar, transforma-me a mim e o mundo ao meu redor. Por isso logo a seguir diz o Salmo: «Levanta o pobre da miséria…» Com o seu olhar para baixo, Ele levanta-me, toma-me benignamente pela mão e ajuda-me, a mim próprio, a subir de baixo para as alturas.
“Deus inclina-Se”. Esta é uma palavra profética; e, na noite de Belém, adquiriu um significado completamente novo. O inclinar-Se de Deus assumiu um realismo inaudito, antes inimaginável. Ele inclina-Se: desce, Ele mesmo, como criança na miséria do curral, símbolo de toda a necessidade e estado de abandono dos homens. Deus desce realmente. Torna-Se criança, colocando-Se na condição de dependência total, própria de um ser humano recém-nascido. O Criador que tudo sustenta nas suas mãos, de Quem todos nós dependemos, faz-Se pequeno e necessitado do amor humano. Deus está no curral.
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Bento XVI: homilia da noite de natal de 2008

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A GRAÇA DO PERDÃO

A matéria prima da criação é o amor. Quando a Trindade transbordou o amor entre Eles, o mundo foi criado. No centro dessa criação, encontra-se a pessoa humana, excelência desse amor criacional. Criados no amor, para o amor. Qualquer tentativa de viver à margem desse amor é uma descaracterização da pessoalidade. Amar é a condição de ser. Podemos fazer tudo, como nos lembra São Paulo, mas se não tivermos o amor de nada seria ou valeria. O amor tudo crê, tudo espera, tudo suporta, tudo alcança. Não é rancoroso, nem se encoleriza, não sente inveja ou se envaidece. Lembra-nos o Cântico dos cânticos, águas torrenciais jamais apagarão amor, nem rios poderão afogá-lo. Por isso, São João vai dizer: quem não ama, não conhece a Deus porque Deus é Amor.

Não se pode falar de perdão sem lembrar do pressuposto do amor. Foi para amar que Deus nos criou. O perdão que ofereço, na verdade, é uma prova da minha capacidade de ser melhor. Quem perdoa, é o maior beneficiário do perdão. Por vários motivos: lembra-me a raiz originária do meu ser, recorda-me que o outro é capaz de refazer seus erros, configura-me ao coração amoroso de Jesus, e, o melhor, hominiza-me. E tantos outros benefícios. Acrescente os seus!

Quem sente dificuldade em perdoar, sente dificuldade em amar. Quem não consegue perdoar o outro, tão pouco consegue se perdoar. Perdoar é entrar na dinâmica do amor que se dá, e do amor que se recebe. Amar é movimentar-se, gratuitamente, na direção do outro. Não há expectativa de retorno. Não há frustração caso não haja reciprocidade. Se houver retorno pelo amor que se dá, isto faz bem, ajuda a existir plenamente, mas não se depende do amor retribuído para existir e amar. São Francisco, no século XIII, já intuíra essa verdade: Amar que ser amado!

Perdoar é liberar toda capacidade de amar que guardo dentro de mim e que não me pertence. Meu amor não é meu, é do outro. Perdoar é dizer não ao egocentrismo, que mata as relações humanas. O egocentrismo prejudica as relações, pois vai no sentido inverso da verdadeira fonte de vida: o amor gratuito. Quem cultiva ódio adoece, envelhece precocemente e até se auto-elimina, da forma mais dolorosa. Cientificamente, segundo especialistas, ódio, ressentimento e mágoa provocam aumento da pressão sangüínea, do batimento cardíaco e da tensão nos músculos. Perdoar é mais barato e mais saudável!

Com a palavra, o Mestre do Perdão, Jesus de Nazaré: “Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que estão fazendo!” (Lc 23, 34). Essas palavras foram pronunciadas, por Jesus, quando os pregos dilacerantes lhes rasgavam a carne na hora da crucifixão. Uma dor indescritível foi experimentada por Ele. A dor do abandono, da incompreensão, da rejeição, da calúnia e da difamação, do ódio do coração humano contra Ele, do silêncio absurdo do Pai... Ali, na cruz, na dor, Jesus se desfigurou humanamente, mas não perdeu a imagem do Divino que habitava seu ser. Ele foi capaz de tudo, menos de deixar de amar. Importava, para Jesus, que Ele não perdesse o foco de sua missão e de sua pessoalidade: o amor. Nem a cruz nem a morte foram capazes de arrancar o amor-perdão do Coração de Jesus. Tenhamos os mesmos sentimentos de Cristo e sejamos felizes, mesmo com os percalços e as intempéries que nos sobressaltam. Amar é o melhor remédio para viver bem! A pior raiva é a que se guarda! Não perca tempo, perdoe agora mesmo!
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Frei Mário Sérgio, ofmcap. Cedido por frei Arnaldo Aragão, ofm conv.

domingo, 8 de novembro de 2009

Como quando a gente coloca na boca aquela gostosa colher de doce da mãe

“Gente simples, fazendo coisas pequenas, em lugares pouco importantes, consegue mudanças extradordinárias.” (provérbio africano)

E assim caminhamos, na serenidade. Neste mundo que chamamos pós-moderno, na dinamicidade dos acontecimentos, na mudança repentina das coisas que não possuem aspecto de continuidade, não degustamos mais os acontecimentos.

A degustação se faz pela reflexão atenta - pode ser também desinteressada - e repetitiva, por que não. Os acontecimentos possuem um quê de sabor, mas precisa de duração, de lentidão, de olhar fixo e calmo.

Desse modo, a mudança social acontece também, pois buscamos fazer aquilo que mais precisa e não perdemos tempo com o que poderia nem sequer existir. Fazer coisas pequenas, mas que nem são tão pequenas assim; os lugares que dizemos sem importância guardam um valor inestimável, basta pensar naqueles onde nos sentimos libertos de tudo; a mudança que tanto queremos acontece quando voltamos à inocência originária da nossa vida.

Lá está o frescor inestimável que alenta o coração, saudade-mãe de toda alegria de viver, com desejo de "volta por favor", mas que nos coloca na vida no mesmo instante, pois descobrimos que nada volta, a não ser na lembrança do coração. Ô vida boa de viver...

Deus está no meio de tudo isso e mais um pouco!
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MDT

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Francisco, Franciscano, Deus, Liberdade. Que emaranhado!

Como Francisco certa vez afirmou, seus irmãos devem desejar viver em um único convento: o mundo.
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Na boca de Francisco essa afirmação tem peso. Primeiramente, ele não queria de nada se apropriar, nada mesmo! Assim, sua vida tornou-se um tratado sobre o que significa a liberdade, que não é outra coisa senão, aquela da existência liberta pela descoberta de um sentido maior: Deus está no mundo!
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E o mundo é a história da liberdade de Deus: criou e ama!
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Francisco, franciscano, Deus, Liberdade tornam-se um emaranhado de encontro e transformação vital nos desencontros da vida aí.
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Quanta coisa ainda...
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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A dúvida - uma pequeníssima reflexão


"A dúvida pode ser um elo tão poderoso como a certeza."

A dúvida cria possibilidades, lança para frente em um não esperar o que se pensava que fosse. Ao mesmo tempo faz-nos rever a vida e os conceitos prontos.

Para os apressados, dúvida não é relativismo ou desconfiança sem fins exatos, mas princípio concreto para a busca. E para que a busca seja humana.

Respostas?
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MDT

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Espontaneidade e criatividade

Há um dogma no modo de pensar usual e comum, um dogma com o qual todos de antemão concordamos: o ser humano deve ser espontâneo, isto é, deve viver solto, conforme seu gosto, seu sentir, seu achar, suas emoções, porque tem direito a ser feliz.
É engraçado, porém, que não se perceba o seguinte: que quem vive assim, espontaneamente, não realiza nada na vida, não fica feliz, não marca positivamente a vida de ninguém e, quando se vai, vai tarde, esquecido por todos. Por isso, seguir o dogma acima mencionado não é grande sabedoria!

A intuição originária, que havia antigamente por trás da palavra espontâneo, é diferente. Espontâneo vem do latim "spons" que quer dizer "vontade", isto é, querer, luta, busca, empenho de realização de uma busca... Portanto, em latim, espontâneo significa o contrário do que usualmente nós entendemos hoje.

Mas por que, afinal, toda essa consideração? Porque estamos empenhados em nossas atividades eclesiais, comunitárias e pastorais. Neste empenho é importante percebermos que ser cristão, ser Igreja, participar da evangelização, da comunidade, da pastoral não é em nada espontâneo no sentido usual, mas é antes determinação, vontade, empenho, luta, para levar adiante algo que é bom, mas que nos faz resistência e exige doação de nós mesmos.

Nós gostamos da causa do Evangelho: ela nos tocou e toca o coração. O Evangelho é a nossa grande e nobre causa. Sabemos, porém, que o gosto mais verdadeiro é "querer gostar", isto é, doar-se. Quando alguém se empenha, luta, doa a si mesmo, a causa, aos poucos e sempre mais intensamente, começa a se tornar realidade; ela acaba acontecendo. E o Reino de Deus anunciado por Jesus torna-se presente entre nós.

Mas, nisso tudo, o querer e o empenho são importantes demais, porque dão a garantia de continuidade, pois as coisas grandes e nobres somente acontecem na insistência, na constância, na paciência, superando dificuldades, resistências, oposições...

Em nossas comunidades, pastorais e movimentos não faltam desafios, urgências, problemas antigos, novas iniciativas. No empenho de nossas atividades tudo isso se apresenta por primeiro, incutindo-nos certo temor. E se somos conduzidos pelo espontâneo usual poderíamos nos deixar tomar pela lamúria, choro, desânimo... Mas, se nos posicionamos como aqueles que buscam, que lutam, que querem ser colaboradores do Deus de Jesus Cristo na sua causa, aí ressurge a coragem, renova-se a vontade boa e eficaz, recria-se a comunhão...

Esse empenho, diferentemente do espontâneo usual, tem um efeito colateral altamente positivo: o de cutucar a criatividade, arte na qual nós brasileiros somos "peritos". Criatividade, no fundo, é grande habilidade de lidar com as situações desafiadoras, fazendo surgir alternativas que, de tão boas, chegam a surpreender até quem as intuiu. E nossas comunidades e pastorais precisam de vitalidade criativa.

Ao encararmos nossas atividades pastorais queremos, como bons profissionais da causa do Evangelho, ter vontade boa, empenho decidido, querer paciente, luta humilde e pacifica, busca iluminada, atuação eficaz. Afinal, queremos ser fiéis ao dom recebido de sermos seguidores de Jesus e testemunhas do Evangelho.
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Dom Fernando Mason ofm conv. Atual bispo diocesano de Piracicaba

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

FAZER EXPERIÊNCIA DE DEUS

Texto longo, mas fundamental. Acompanhe:

Quando falamos em espiritualidade, vêm à nossa mente muitos conceitos captados ao longo da vida. E muitos deles precisam ser calibrados melhor.
Em outro artigo, dissemos que a espiritualidade é, em última análise e em sua essência mais radical, fazer a experiência de Deus. Em vez de Deus, usa-se também termos como o divino, a divindade, o transcendente, o mistério, o sagrado, o radical-outro, a força cósmica, o absoluto, o supremo, a Vida, e outros.
Deus? O que é isso afinal? A palavra Deus é uma palavra-origem. As palavras-origem ou dizem tudo ou quase nada. Quase nada para quem está por fora. Tudo para quem está por dentro. Assim, para quem está engajado na busca e na experiência de Deus, a palavra Deus faz ecoar as profundezas maiores da existência.
Sempre que falamos de Deus, temos dele uma determinada representação. Mas "Deus" não é um conceito, uma idéia, uma representação; ele não é uma coisa sobre a qual "experimentamos". Ele aparece aos poucos e sempre mais, à medida que caminhamos; aparece dentro do próprio caminhar da vida. Aparece nas vicissitudes da vida como alguém que nos chama, provoca, convoca, sustenta, consola e ensina com suavidade e rigor. Por isso tudo o que nos acontece, todas as coisas, todos os encontros e desencontros são na realidade encontros com Deus, experiência de Deus que se nos revela no abismo do mistério do seu amor.
À medida que crescemos na experiência, nossas representações começam a se diluir e se transformam numa presença viva; Deus então se torna uma iluminação, uma força de atuação; Deus deixa de ser representação e conceito, e se torna presença, alguém com quem se tem um encontro real. Mas isso só acontece quando se tem a decisão de fazer a experiência dele.
Há, porém, um equívoco na compreensão da expressão "experiência de Deus", que deve ser tirado a limpo: o de identificamos experiência de Deus com o que “sentimos” em certas práticas religiosas; e se em certos momentos de dificuldade, provação e angústia nada sentimos, tiramos facilmente a conclusão que temos “falta de fé". Mas, os "sentir" pode ser simplesmente euforia emotiva e o "não sentir", quem sabe, ocasião única para alargarmos o nosso coração para a recepção de uma presença que se apresenta fora dos padrões de nossa expectativa. Jesus na cruz é o exemplo mais nítido disso.
Buscar a experiência de Deus é se dar a fé como identidade: acreditar numa força anterior, uma realidade fundamental e mais profunda. É entregar-se ao “Deus revelado em Jesus Cristo”, buscando o chamado dele, que nos ama antes que nós o amemos. Somos escolhidos por Ele que nos amou primeiro. Assim, Deus se torna onipresente, como aquele que nos ensina, consola, provoca, orienta e nos chama à vida com Ele. Essa é a realidade gratificante, que não pode ser esquecida ou diminuída por causa das dificuldades e dos fracassos naturais que encontramos no dia-a-dia.
A experiência de Deus diz respeito ao modo fundamental do nosso relacionamento universal com a vida e com tudo o que ela nos apresenta. Essa presença se espraia por todos os seres do universo. Por isso em todos os seres, na imensidão do firmamento, nas oscilações do tempo e das estações, nos acontecimentos, enfim, em todos os fenômenos do universo, do tempo e do espaço, em todas as vicissitudes históricas, em todas as culturas, em tudo o homem de fé encontra vestígios, provocações e convocações de Deus. Portanto tudo pode evocar a tarefa de crescer na experiência de Deus.
Quem busca fazer a experiência de Deus, cumpre a sua santa vontade. Fazer a vontade de Deus, cerne da identidade cristã, significa participar da sua dinâmica criadora, que enche o universo, que cria novo céu e nova terra, que envia o sol e a chuva a justos e injustos, que varre o vale da morte e da sombra com o sopro vivificador da ressurreição, que cuida dos pardais e das flores do campo, que derruba os poderosos dos tronos e exalta os humildes.
Fazer a experiência de Deus, portanto, é assumir o projeto divino originário acerca do homem. Esse projeto, concretizado por Jesus Cristo, vai além das práticas de piedade, ainda que precise delas; é projeto que salva nossa existência pessoal e transforma (isto é, salva!) o convívio, construindo uma nova realidade marcada pela justiça, pela fraternidade, pela paz, pela vida!
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Dom Fernando Mason ofm conv.: http://www.diocesedepiracicaba.org.br/

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O Espírito de Assis

Os encontros de oração e jejum pela paz convocados pelo Papa, em Assis, nos dias 27 de outubro de 1986 e 9-10 de janeiro de 1993, pertencem àquele tipo de experiências que não esgotam seu significado e sua grandeza no fim do dia em que foram vividas, nem nos gestos e palavras pelas quais foram expressas. Isso porque se tornam como que "sacramentais", ultrapassam qualquer tipo de materialidade para chegar à categoria do simbólico, tornam-se verdadeira "profecia", no sentido primeiro e mais profundo do termo. A presença simultânea dos representantes das grandes religiões do mundo, de modo especial, dos hebreus, cristãos e muçulmanos, que há muitos séculos se tratavam com suspeita e até intolerância, o objetivo comum que os reuniu, rezar pela paz, o estar lado a lado partilhando as mesmas ansiedades e os mesmos ideais, transforma-se num fato prodigioso, num genuíno "sinal dos tempos".
Desde o século XIII, muitas outras circunstâncias sempre atraíram grandes personalidades a Assis. Sobretudo papas. Para só ficarmos nos tempos mais próximos a nós, recordamos a peregrinação de João XXIII, antes da abertura do Concílio Vaticano II, e do próprio João Paulo II, em 1978, no início de seu pontificado, e depois, em 1982. Mas esses dois encontros, de 1986 e 1993, assumem um valor e um significado especial, por causa daquilo que ali se fez e por originar aquilo que o próprio Papa chamou e se continuou a tratar de "espírito de Assis.
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Autor Frei Ary E. Pintarelli

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Compreensão do sofrimento a partir do livro de Jó - Pequena explanação

O sofrimento é a ocasião que abre a porta do drama, porém, o tema que se apresenta com mais intensidade é o da justiça de Deus. Os amigos defendem a teologia tradicional sapiencial que deseja defender Deus à custa do ser humano ainda que seja despojado e sofra injustamente. Os amigos argumentam pela tradição, acusam com o objetivo de defender sua teologia. Mas Jó reflete a partir da própria realidade que vive, e por isso seu discurso apresenta características inovadoras.

O Deus que seus amigos apresentam seria de fato o Deus de verdade? Durante o percurso do livro percebemos não alusão a realidade em que vive Jó e muito menos ao problema da injustiça que ele havia colocado.[1]

Uma característica fundamental do ser humano é a capacidade de perceber a injustiça e lutar contra ele. Percebemos que algo é injusto e nos dispomos a nos levantar e dizer o que pensamos; preferimos correr riscos e nos submeter. O livro de Jó é exatamente uma expressão dessa posição.[2]
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[1] ROSSI, Luis Alexandre Solano. A falsa religião e a amizade engandora: o livro de Jô. São Paulo: Paulus .p 12
[2] BERGANT, Dianne; KARRIS, Robert J. (orgs) Comentário Bíblico. São Pulo: Loyola. Vol. II. 1999

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Com Nossa Senhora Aparecida também padroeiro do Brasil

Famoso por suas terríveis penitências, nasceu em 1499 na comunidade espanhola de Alcântara. Seu pai era governador da região e sua mãe era de muito boa família. Ambos se distinguiam por sua grande piedade e seu excelente comportamento. Estando estudando na universidade de Salamanca, o santo se entusiasmou pela vida dos franciscanos devido a que os considerava pessoas muito desprendidas do material e muito dedicadas à vida espiritual. Pediu ser admitido como franciscano e elegeu para viver no convento onde estavam os religiosos mais observantes e estritos dessa comunidade. No noviciado o puseram de porteiro, hortelão, varredor e cozinheiro. Mas neste último ofício sofria freqüentes repreensões por ser bastante distraído. Chegou a mortificar-se tão asperamente no comer e o beber que perdeu o sentido do paladar e assim todos os mantimentos lhe pareciam iguais. Dormia sobre um duro couro no puro chão. Passava horas e horas de joelhos, e se o cansaço lhe chegava, apoiava a cabeça sobre um prego na parede e assim dormia alguns minutos, ajoelhado. Passava noites inteiras sem dormir nem um minuto, rezando e meditando. Por isso foi eleito protetor dos zeladores e guardas noturnos. Com o tempo foi diminuindo estas terríveis mortificações porque viu que lhe arruinavam sua saúde.
Foi nomeado superior de vários conventos e sempre era um modelo para todos seus súditos quanto ao cumprimento exato dos regulamentos da comunidade. Mas o trabalho no qual mais êxitos obtinha era o da pregação. Deus lhe tinha dado a graça de comover os ouvintes, e muitas vezes bastava apenas sua presença para que muitos começassem a deixar sua vida cheia de vícios e começassem uma vida virtuosa. Preferia sempre os auditórios de gente pobre, porque lhe parecia que eram os que mais vontade tinham de converter-se. Pediu a seus superiores que o enviassem ao convento mais solitário que tivesse a comunidade. Mandaram-no ao convento de Marisco, em terrenos desabitados, e lá compôs um formoso livro a respeito da oração, que foi extremamente estimado pela Santa Teresa e São Francisco de Sales, e foi traduzido a muitos idiomas.
Desejando São Pedro de Alcântara que os religiosos fossem mais mortificados e se dedicassem por mais tempo à oração e a meditação, fundou um novo ramo de franciscanos, chamados de "estrita observância". O Supremo Pontífice aprovou tal congregação e logo houve em muitos lugares, conventos dedicados a levar a santidade a seus religiosos por meio de uma vida de grande penitência. Os últimos anos de sua vida os dedicou a ajudar a Santa Teresa à fundação da comunidade de Irmãs Carmelitas que ela tinha baseado, obtendo muitos êxitos na extensão da comunidade carmelita.

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Fonte: http://www.acidigital.com/santos/santo.php?n=117

sábado, 10 de outubro de 2009

O que é mesmo a verdade?

O que angustia o ser humano? A busca da verdade ou descoberta dela? É sabido que não podemos responder a essas questões somente com alguns parágrafos de reflexão, haja vista que temos ao longo dos séculos tratados e mais tratados acerca da verdade. O nosso foco aqui não é a verdade enquanto tal, mas o nosso comportamento diante dela. Sendo assim, a verdade em nível de filosofia e de teologia não é uma certeza matemática ou o resultado de uma experimentação científica. Ela é um encontro com algo maior que provoca mudanças radicais no interior do ser humano.
Quem procura a verdade ou vive a verdade a modo de ciência um dia se cansa dela, pois a verdade na ciência somente tem validade enquanto não surge um novo problema. É sabido também que os muitos problemas que o homem pós-moderno enfrenta não diz respeito diretamente a busca da verdade, mas ao comportamento diante de uma pseudo-verdade criada a sua imagem e semelhança; daí a dificuldade de falar de transcendência, de metafísica, da existência de Deus... procuramos “as verdades” que nos convém, que atendam aos nosso interesses pessoais, sejam eles econômicos, psíquicos, políticos, religiosos, etc. Porém, as implicações que a “verdade verdadeira” propõe nos causa medo, isto é, nos ausenta das responsabilidades porque temos medo de encará-las de frente, face a face - num tu-a-tu, que nasce dum encontro apaixonante.
Com certeza se seguíssemos os conselhos do bem-aventurado frei Egidio de Assis descobriríamos que o “difícil não é entrar na côrte, mas permanecer nela”. A côrte exige alguns comportamentos diferentes dos lugares comuns cotidianamente por nós freqüentados. A verdade é a morada do rei, a saber, a corte. E somente quem tem espírito de nobreza, consegue viver na verdade, e nisso os pobres e os marginalizados da pós-modernidade são exemplos de nobreza, pois não habitam nas pseudos verdades e, suas côrtes, não são iguais a côrte dos homens pós-modernos que se escondem nos condomínios de luxo fechados com medo de encarar a verdade como ela aparece, na factualidade existencial.
O que de fato a verdade?
Poema: Teresa
A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.
(Manuel Bandeira)
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Escrito por frei Arnaldo Aragão OfmConv.

domingo, 4 de outubro de 2009

DIA DE FESTA E REVISÃO DE VIDA - SÃO FRANCISCO NOSSO PAI

SÃO FRANCISCO DE ASSIS

MESTRE DO AMOR E DA LIBERDADE
PATRONO DOS QUE AMAM A JUSTIÇA
IRMÃO DOS QUE VIVEM NA BONDADE

QUERIDO PAI, ABENÇOE ESTES VOSSOS FILHOS PARA QUE SEJAMOS FIÉIS NO SERVIÇO DE CRISTO NO MUNDO.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A complexidade da formação literária da Bíblia: parte 1

Tentativa de resposta às questões feitas na postagem anônima do dia 1 de setembro de 2009

Qual sua opinião sobre a exatidão e veracidade das escrituras, podem elas terem sido adaptadas para algum tipo de convencionalismo, pq textos selecionados? O povo deve permanecer na ignorância por vontade do homem?

“Diversamente do islamismo, o cristianismo não constitui religião do livro. Para o surgimento de uma coleção de escritos santos, tidos como inspirados e canônicos contribuíram antes apenas razões sugeridas pelo seu processo e sua situação: além do impulso interno para automanifestar-se socialmente (paralelamente com a hierarquia e constituição de Igreja), a crescente distância concernente aos fundadores, a atitude missionária, o modelo anterior dos escritos do Antigo Testamento e, não em último lugar, a necessidade apologética. Uma vez que já bem cedo adveio o fenômeno de escritos paralelos, concorrentes e imitativos, já no decurso do processo de surgimento propô-se o problema da delimitação (cânon) e apreciação de seu valor, como também de sua exploração metódica, de sua interpretação teológica e, não em último lugar, de sua classificação literária.”[1]
Os textos são selecionados não para obedecer a uma ideologia constituída, mas exatamente porque obtiveram aceitação na Igreja. Quando se diz Igreja quer se afirmar a comunhão popular de todos os membros. O que aconteceu posteriormente foi uma canonização dos livros por parte da “hierarquia” e também exegetas competentes, ou seja, foram adotados como livros inspirados por Deus. Afirma o mesmo dicionário de teologia supracitado: “Como texto, a Escritura, como toda expressão literária, requer, durante o seu surgimento (2 Pd 3,16), recepção inicial. Contudo, distingue-se ela do caso normal pelo fato de que o seu leitor primário não é o destinatário individual, mas a Igreja. Somente por sua “leitura” é que a Escritura ganha sua plena realidade atual. Somente assim é que se pode entender que a Igreja decide não só com autoridade exterior, mas também por competência interna, sobre a abrangência, qualidade e dignidade da Escritura, mas sobretudo sobre o seu sentido.”[2]
MDT
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[1] EICHER, Peter (org.). Dicionário de conceitos fundamentais de teologia. São Paulo: Paulus. 1993. p. 235
[2] Id. Ibid., p. 236

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A vocação franciscana - parte III: Origem do nome "Frades Menores" A minoridade Franciscana (Continuação)

É certo que em Assis, como no resto da Itália, existiam duas classes sociais, os menores ou classe urbana, a qual ele pertencia, e os maiores ou nobres, a qual ele aspirava pertencer. Mas nada, nem em seus escritos nem nas demais fontes, dá a entender que fosse assim; antes disso, escolheu o caminho da minoridade evangélica, como se quisesse dar uma lição não somente nos maiores e poderosos, mas também nos que, chamados menores, aspiravam, pela riqueza e poder, colocar-se a altura da classe feudal dominante. Disse frei Tomás de Celano que Francisco elegeu o nome de Menores ao rever a Regra que ele mesmo havia redigido, onde se dizia: "Os irmãos sejam menores". Foi então que exclamou: "Quero que esta fraternidade se chame Ordem dos Frades Menores". Com efeito, em vários capítulos da Regra de 1221, que parecem remontar-se ao texto primitivo, aparece o termo menores, sempre com uma indiscutível raiz evangélica. No capítulo 5º se lê: " Nenhum irmão tenha poder ou domínio, e menos entre eles; pois, como diz o Senhor no evangelho; 'Os comandantes dos povos os dominam e os que são maiores exercem poder sobre eles'. Não será assim entre os irmãos. Todo aquele que quer ser maior entre eles seja seu ministro e servo; e o que quer ser o maior entre eles, que seja o menor. E nenhum irmão cause dano ou fale mal de outro, mas, pela caridade do espírito, sirvam e obedeçam uns aos outros de boa vontade. E esta é a verdadeira e santa obediência de Nosso Senhor Jesus Cristo".
Nos capítulos 6º e 7º está escrito: "A ninguém se chame de prior, mas todos, sem exceção se chamem de frades menores. E lavem os pés uns dos outros... Os irmãos, onde quer que se encontrem, servindo ou trabalhando em casas de outros, não sejam secretários nem estejam à frente deles nem aceitem nenhum ofício que provoque escândalo ou cause dano a sua alma; mas sejam menores e sejam submissos a todos os que vivem na mesma casa".
Também se conta que Francisco incluiu o nome de menores na regra por revelação divina, porque quis fundamentar-se a si mesmo e a sua família sobre a rocha firme da humildade e pobreza do Filho de Deus. Um testemunho pouco conhecido de frei Gil o explica deste modo: "Dizer 'frade menor' é como dizer 'estar aos pés de todos'. Quanto maior seja a humilhação, maior será a exaltação. Por isso São Francisco dizia que o Senhor lhe havia revelado que deviam chamar-se 'Frades Menores'". A essa revelação se referia seguramente quando dizia a seus íntimos: " A Ordem dos Frades Menores é um pequeno rebanho que o Filho de Deus pediu ao Pai nestes últimos tempos, dizendo: 'Pai, quisera que me desses um povo novo e humilde que se distinga, por sua humildade e pobreza, de todos os que o tem precedido, e se conforme com ter somente a mim'. E o Pai lhe concedeu. Por isso quis o Senhor que se chamem Menores, pois eles são esse povo que o Filho de Deus pediu ao Pai e do qual diz o evangelho: 'Não temais, meu pequeno rebanho, pois o Pai tem se comprometido em dar-lhes o reino'. E também: 'O que fizestes a um destes meus irmãos menores, a mim mesmo fizestes'.
Quando o Senhor falou assim, se referia, sem dúvida, a todos os pobres de espírito, mas, principalmente, predisse o nascimento em sua Igreja da Ordem dos Frades Menores". Em outra ocasião dirá: "Deus quis que se chamassem Frades Menores porque devem mostrar-se inferiores e mais humildes e pobres, pela humildade de coração, nas palavras, em obras e no hábito; e nunca pretendam ser maiores na Igreja, mas peçam e permaneçam sempre na maior e mais profunda humildade".
Minoridade, portanto, como sinônimo de humildade, em seu mais pleno sentido. Assim o reconhece, por exemplo, Tomás de Celano quando escreve: "Certamente, eram frades menores aqueles que, submissos a todos, buscavam sempre o último lugar e tratavam de trabalhar nos ofícios que tinham alguma aparência de desonra, a fim de que, fundados na verdadeira humildade, merecessem ser edificados perfeitamente no edifício espiritual de todas as virtudes".
São Boaventura é do mesmo parecer: "Francisco, exemplo de humildade, quis que os irmãos se chamassem menores, e os superiores de sua Ordem, ministros (servos), para usar as mesmas palavras do evangelho, cuja observância havia prometido, para que seus discípulos se dessem conta de que tinham vindo à escola de Cristo humilde para aprender a humildade". E o bispo Jacques de Vitry, que conheceu pessoalmente a Francisco e seus companheiros, em fevereiro de 1220, em vida do santo, escreveu: "Esta é a Ordem dos verdadeiros pobres do crucificado, que é também Ordem de Pregadores, os chamados Frades Menores. Por certo, menores e mais humildes que todos os religiosos deste tempo, no hábito, na nudez e no desprezo do mundo".
Por último, como dado de curiosidade, Ângelo Clareno assegura que Francisco não quis que sua família religiosa se chamasse Ordem, mas "Vida" dos Menores. Ignoramos de onde tirou esta notícia, mas o certo é que nas versões conhecidas da Regra, e em todos os seus escritos, nunca aparece a palavra Ordem, mas Religião, Fraternidade ou Vida, como quando diz: "Esta é a vida do Evangelho", "Esta é a regra e vida dos Frades Menores", "Se alguém quiser abraçar esta vida"...
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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A vocação franciscana - parte III: Origem do nome "Frades Menores" A minoridade Franciscana

Antes da aprovação da Regra, o grupo de frades de Rivotorto não tinha uma denominação específica e se apresentava simplesmente como "Penitentes de Assis", porque ainda não eram uma Ordem. Somente depois da aprovação da Regra ou forma de vida por parte de Inocêncio III começaram a chamar-se Frades Menores, mas graças ao testemunho do cronista Buscardo de Ursperg sabemos que no princípio se chamavam Pobres Menores, em sintonia com outros movimentos de seu tempo, heréticos ou não, que se chamavam Pobres de Lion, Pobres Lombardos, Pobres católicos, etc. Tal relação com outros grupos religiosos contemporâneos não é de se estranhar: Francisco, ainda que dirigido e orientado sempre por inspiração divina, nunca viveu a mercê das inquietudes de seus contemporâneos, nem seu projeto de vida foi alheio aos novos projetos de vida religiosa que se deflagrava ao seu redor. Basta comparar seu ideal de pobreza, itinerância, pregação da penitência e demais práticas evangélicas e apostólicas para comprovar que não era diferente dos demais grupos. Portanto, a originalidade franciscana não está ali, mas na radicalidade de vida, que superou a todos, na catolicidade insubornável e, sobretudo, no modo humilde e serviçal -minoridade- com que se apresentava ante os demais. Para salvaguardar a humildade do grupo foi que o santo substituiu em seguida o nome de Pobres pelo de Frades, como refere o mesmo Buscardo de Ursperg ao descrever seu estilo de vida; "Estes -os menores- ao contrário daqueles (os pobres lombardos): andavam realmente descalços, tanto no verão como no inverno, e não recebiam dinheiro nem outras coisas, salvo o alimento ou, todo o mais, a roupa necessária, se alguém lhes desse espontaneamente, pois nada pediam a ninguém. Eles mesmos, andando no mundo, ao se dar conta de que as vezes a fama de muita humildade pode levar a vanglória e de envaidecer-se diante de Deus por motivo de pobreza, como ocorre com muitos, preferiram chamar-se Frades Menores, em vez de Pobres Menores, submetidos totalmente à Sé apostólica". AoSubmeter-se totalmente à Sé apostólica, Francisco impediu que sua Ordem tropeçasse na mesma pedra que outros contemporâneos seus, caindo na arrogância e na vanglória. Não aconteceu isso por graça de Deus e porque o bispo de Assis Guido I teve suficiente sabedoria desde o princípio para evitar esse desastre. O mesmo Santo se mostrava agradecido, quando dizia aos seus irmãos: "O Senhor nos enviou para propagar a sua fé e dos prelados e clérigos de nossa Santa Mãe Igreja. Por isso, devemos, na medida do possível, amá-los sempre e honrá-los e respeitá-los. Os irmãos se chamem Menores porque, como no nome, também sejam humildes pela conduta e exemplo com todos os homens deste mundo. Porque no princípio de minha conversão, quando me separei de meu pai carnal e do mundo, o Senhor pôs suas palavras na boca do bispo de Assis para dar-me conselho e ânimo no serviço de Cristo. Por essa razão e por outras muitas qualidades eminentes que aprecio nos prelados, quero amá-los, venerá-los e tê-los como meus senhores; e não somente aos bispos, mas também aos sacerdotes pobrezinhos". Como diziam seus companheiros, Francisco, com a ajuda de Deus e como sábio arquiteto, se fundamentou a si mesmo e a sua Ordem sobre a rocha firme, quer dizer, sobre a altíssima pobreza e humildade do Filho de Deus, chamando-a "Religião dos Frades Menores".Muito se tem escrito sobre a eleição desse título, mas tem que se descartar absolutamente que tivesse que ver com uma opção de classes.
Continua...
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Do endereço http://www.vocacoes.com.br/l_ofm.htm#1

sábado, 19 de setembro de 2009

A vocação franciscana - parte II: Assim eram chamados: penitentes de Assis

Por frei Arnaldo Aragão OfmConv
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Continuando, do dia 31 de agosto de 2009, a reflexão em preparação para a solenidade dos 800 anos de fundação do carisma franciscano.

Estamos às vésperas da solenidade de morte do nosso seráfico pai São Francisco. Neste ano esta solenidade se dará de modo todo especial, pois estamos comemorando os oitocentos anos do nascimento da Ordem Franciscana ou carisma franciscano. Para evitar todo e qualquer anacronismo é necessário voltar ao princípio deste acontecimento.
Não podemos pensar que frei Francisco no começo criou uma “ordem” tal qual conhecemos hoje, até porque o seu desejo primeiro era “começar a fazer penitência”. E isto ele o fez até o último suspiro que Deus lhe concedeu na “terra dos homens”. Começar a fazer penitência é indubitavelmente a condição da possibilidade para entendermos o caminhar nascedouro da vida de Francisco e conseqüentemente o resultado da sua conversão.
Sendo assim, Francisco e os seus companheiros eram conhecidos e definidos como os penitentes de Assis. É sabido que anteriormente a Francisco já existiam grupos ou movimentos que se denominavam penitentes; isto porque é saudade da nossa alma buscar Deus e para chegar a Ele é necessário fazer penitência. Aqui entendida como concreção de um encontro com Cristo e não como um fardo duplamente pesado. É neste espírito que Francisco inicia sua trajetória, a partir da alocução do crucificado: “Francisco vai e restaura minha Igreja, que em ruínas cai”.
Toda e qualquer penitência indica mudanças, na linguagem religiosa – conversão. Todo processo de conversão é exteriorizado, isto é, colocado em miúdos aquilo que foi significativo para uma mudança de vida. É nesta direção que Francisco se encontra no começo. O ideal evangélico o atraiu de tal forma que ele quis viver de um modo todo especial, a modo de pobre: uma túnica, bastão, cinto, sacola, sandálias, etc, são substituídos por apenas um saco de pano surrado, descalço e o cordão na cintura como cinto, esse era o seu traje de festa. Essa mudança interior e exterior atrai outras pessoas para si: assim vieram os primeiros companheiros de Francisco. Assim começou a formar “os penitentes de Assis” que algum tempo mais tarde serão chamados de irmãos menores, a exemplo de Jesus Cristo que também se fez irmão menor para a salvação de todos.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Dia da impressão dos Estigmas em São Francisco

Celebramos hoje o dia da impressão das chagas do Crucificado em Francisco. Isso aconteceu no Monte Alverne, quando ele se retirou para a celebração da quaresma de São Miguel Arcanjo. Depois de profundos momentos de oração Francisco recebeu a resposta do Senhor para a participação nas dores de Jesus.
Na verdade essa festa, para toda a família franciscana e para a Igreja constitui uma evocação do tipo de intimidade que se deve cultivar com Jesus. Discute-se sobre a autenticidade da impressão de chagas em pessoas afirmando-se que são causas puramente psiclógicas. Decerto, isso constitui o maior testemunho de busca do Senhor, pois afinal, o que não se produz no humano que seja na maioria das vezes fatores psicológicos? E Francisco de modo inteiro se colocou na busca do encontro com o Mestre.
MDT

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Desafio: ARRISCAR

Na história humana cada pessoa, na configuração existencial na qual se encontra, tem o dever de viver construindo sentindo e descobrindo sentido.
Se assim não o fosse dificilmente conseguiríamos construir a história e nos encontrar todos aqui onde estamos.

É fato real que se não vivemos a vida cobrando sentindo para tudo, um dia, a qualquer momento, sem esperar, a própria vida cobrará de nós... Essa afirmação não é gratuita assim. A depressão, não acontece devido a este fator? Uma hipótese que pode ser até mesmo perigosa e simplória demais.

Ainda, a estabilização (estagnação existencial) e a segurança exagerada são fatores que se despontam arriscados. Como isso? Sim, quem não arrisca na vida, ainda que por períodos de intervalos longos, não conhece o sabor da vitória e nem amargo da derrota, este tão fundamental para o amadurecimento. Se isso não houver, um dia a vida vai cobrar...

Os fracassos possíveis da iniciativa de quem tenta são reais. Mas, não podem amendrontar! Têm que se nos afigurar como momentos de encontro com o desafio essencial, o de viver. Quem pouco erra é sinal de que pouco está se arriscando.

É fato real que existe quem tenha determinados tipos de personalidade que não possibilitam isso, mas o mínimo de tempero deve existir em qualquer refeição, caso contrário fica difícil descer e até digerir o alimento.
MDT

sábado, 12 de setembro de 2009

Aprender do sofrimento

Por Leonardo Boff

O sofrimento é a grande escola do aprendizado humano. Contém verdade, a frase atribuída a Hegel:”o ser humano aprende da história que não aprende nada da história, mas aprende tudo do sofrimento”. Prefiro a formulação de Santo Agostinho em suas Confissões:” o ser humano aprende do sofrimento mas muito mais do amor”.
O amor fati (o amor à realidade crua e nua) dos antigos e retomado por Freud se impõe nos dias atuais em que a humanidade se vê assolada por grave crise de sentido, subjacente à crise econômico-financeira. Devemos reaprender a amar de forma desinteressada e incondicional a Terra, todos os seres, especialmente os humanos, os que sofrem, respeitá-los em sua diferença e em suas limitações. O amor é uma força cósmica que “move o céu e as estrelas” no dizer de Dante. Só quem ama, transforma e cria.
Os grandes se reúnem, estão confusos e não sabem exatamente o que fazer. É que amam mais o dinheiro que a vida. Se amor houvesse, aprovariam o que está sendo proposto: uma “Declaração Universal do Bem Comum da Humanidade”, base para uma “Nova Ordem Global e Multilateral” contemplando toda a humanidade, a Terra incluída. Mas não. Perplexos, preferem repetir fundamentalmente, as fórmulas que não deram certo. Caberia, entretanto, perguntar: que capacidade possuem 20 governos de decidir em nome de 172? Onde estão os títulos de sua legitimidade? Apenas porque são os mais fortes?
Mesmo assim vejo que se podem tirar algumas lições, úteis para as próximas crises que estão se anunciando.
A primeira dela é que os governantes, para além de suas diferenças, podem se unir face a um perigo global. Mesmo que suas soluções não representem uma saída sustentável da crise, o fato de estarem juntos é significativo, pois dentro de pouco enfrentaremos uma crise muito pior: da insustentabilidade da Terra e dos efeitos perversos do aquecimento global. Este trará consigo a crise da água e da insegurança alimentar de milhões e milhões de pessoas. Tal situação forçará uma união dos povos e dos governos, maior do que essa dos G-20 em Londres, caso queiram sobreviver. Se grande será o perigo, maior será a chance de salvação, dizia um poeta alemão, mas desde que ocorra esta união. A solução virá somente de uma política mundial assentada na cooperação, na solidariedade, na responsabilidade global e no cuidado para com a Terra viva.
A segunda lição é que não podemos mais prolongar o fundamentalismo do mercado, o pensamento único que arrogantemente anunciava não haver alternativas à ordem vigente, como se a história tivesse sido engessada a seu favor e destruído o princípio esperança. Nem podemos mais confiar na mera razão funcional, desvinculada da razão sensível e cordial, base do mundo das excelências e dos valores infinitos (Milton Santos, nosso grande geógrafo) como o amor, a cooperação, o respeito, a justiça e outros. Desta vez, ou elaboramos uma alternativa, vale dizer, um novo paradigma civilizatório, com outro modo de produção, respeitador dos ritmos da natureza e um novo padrão de consumo solidário e frugal ou então teremos que aceitar o risco do desaparecimento de nossa espécie e de uma grave lesão da biosfera. A Terra pode continuar sem nós. Nós não podemos viver sem a Terra.
A terceira lição é constatar que a economia, feita eixo estruturador de toda a vida social, se torna hostil à vida e ao desenvolvimento integral dos povos. Ela deve ser reconduzida à sua verdadeira natureza, a de garantir a base material para a vida e para a sociedade.
Vivemos tempos de grandes decisões que representam rupturas instauradores do novo. Bem notava Keynes:”a dificuldade não estriba tanto na formulação de novas idéias mas no sacudir as velhas”. As velhas se desmoralizaram. Só nos resta confiar nas novas. Nelas está um futuro melhor.
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Leonardo Boff é autor de “Ecologia, Mundialização e Espiritualidade” pela Record, Rio de Janeiro.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Um grito contra a crise e a exclusão

Embalados pelo entusiasmo da Campanha da Fraternidade de 1995 que voltava seu tema para a questão do excluídos, os envolvidos na campanha, realizaram, sem imaginar que criariam tradição, o 1° do que viria a ser uma série de Grito dos Excluídos. Atualmente, o Grito tomou dimensões maiores e, agora, acontece em vários Continentes no dia 12 de outubro.
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"O Grito responde a uma necessidade da sociedade brasileira de que não basta apenas celebrar a Independência, porque o país ainda carece de políticas para uma parte que passa fome, que não tem acesso à saúde e a uma educação que responde à realidade", assegura Juvenal Rocha

A ordem é reivindicar, e não comemorar. Com esse mote, organizações populares, movimentos sociais e entidades ligadas à Igreja promovem a 15ª edição do Grito dos Excluídos, como contraponto às festividades oficiais da Semana da Pátria.

Sob o lema "Vida em primeiro lugar, a força da transformação está na organização popular", o Grito se somará às mobilizações que têm denunciado o atual modelo econômico, responsável pela crise financeira, como explica Ari Alberti, integrante da Secretaria Nacional do Grito dos Excluídos: "O Grito questiona esse modelo econômico que está aí, que se sobrepõe à vida, e diz que, se quisermos mudanças, teremos que construir".
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Fonte:
http://www.cebi.org.br/noticia.php?secaoId=1&noticiaId=1205

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Bíblia – Sagrada Escritura – Palavra de Deus

O conjunto de livros canonizados que temos na religião cristã e que chamamos de Bíblia (raiz de palavras como biblioteca, bibliografia...), é nosso ponto de partida para conhecer a fé. E o modo como nos relacionamos com este conjunto de livros nos levou denominá-la de Sagrada Escritura. Estes livros para nós são sagrados, isto é, separados, canonicamente considerados inspirados e escritos pelo próprio Deus que se utilizou de mediadores humanos para tal feito.

Entretanto, este conjunto de livros não possuem sentido porque são conjunto de livros (Bíblia) ou ainda porque são sagrados simplesmente. O sentido mais profundo e sua finalidade última está contida na sua concepção de Palavra de Deus. Outro não é e não pode ser nosso relacionamento com este conjunto de livros sagrados.

Não é difícil encontrarmos motivações precipitadas de relacionamento com a Palavra de Deus simplesmente como um livro de receitas, e estas receitas morais de como se deve agradar a Deus, ou como as pessoas devem se comportar, ou qualquer outra aberração do gênero. Diferente de outras religiões (isso não é crítica comparativa), a religião cristã não é religião do Livro, ou seja, com princípios religiosos advindos das letras de um livro, mas nós nos constituímos a religião da experiência de Deus.

Isso significa que nosso sentido de vida não está no simples decorar de versículos e capítulos dos livros sagrados, mas nosso anseio está em saber quem é Deus, onde ele está. Este relacionamento Jesus nos ensinou a cultivar, corrigindo a concepção de Deus daquele seu tempo: esse nome que não podemos (os judeus) sequer pronunciar é o Abbá. Ou seja, afirmar essa expressão quer dizer um profundíssimo estado de relacionamento íntimo. Essa expressão, Abbá, só podia se dizer no interior das casas, no seio do meio familiar.

Para nós, a hermenêutica da expressão paulina “a letra mata o espírito vivifica” (2 Cor 3, 6) vai justamente nesta direção, não somente da espiritualidade da passagem, mas da penetração vivencial que cultivamos com a Palavra de Deus. Estes escritos existem porque outras pessoas de outros tempos em outros contextos também cultivaram um tipo de relacionamento com Deus que os induziu a tal feito escriturário. Estas letras permanecerão pelos tempos afins enquanto existir um ser humano vivo na face da Terra, porque estas palavras atingiram-nos na nossa essência profunda, quero dizer, atingiram-nos porque são escritos que falam para seres humanos que é o mesmo desde o primeiro até o último ser existente, independente de sua cultura ou nacionalidade. Melhor dizendo, qualquer humano se angustia, se alegra, sofre, ri, chora, tem anseios e desejos e sonhos, tem medo e se arrisca, deseja conhecer o mais profundo da realidade... É nesse “entreveio” que a Palavra de Deus se insere.
MDT

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Deus, Onde estás?

No início do mês da Bíblia um texto inspirador do magnífico biblista Carlos Mesters.
Deus, Onde estás?
A pergunta não é de hoje. Antes de nós, muitos a fizeram. É o tipo de pergunta cuja resposta influi demais no rumo que se toma na vida. Por isso, não é de todo inútil ter alguém que nos possa orientar na procura da resposta. Entre as muitas respostas já dadas, existe uma que a história registra e que, até hoje, não deixa de impressionar. É a Bíblia, traduzida em mais de mil línguas, “best-seller” mundial, com mais de um bilhão de exemplares vendidos.
A Bíblia é como o álbum familiar que conserva tudo quanto é tipo de fotografias, fotografias importantes do dia do casamento, do batismo dos filhos, da nova casa, e fotografias aparentemente sem importância de um pique-nique descontraído, num fim de semana qualquer e que nem data tem mais. Os critérios, para dizer que uma fotografia é importante e outra não, são relativos. A fotografia, tirada com máquina barata, do nenê todo sujo e sorridente, pode ser mais importante do que a fotografia oficial e muito cara, feita no gabinete do fotógrafo. Ambas, porém, são sem importância e sem valor para a carteira de trabalho. Não servem para isso. Mas para álbum, tudo é importante, tudo serve. Ele conserva tudo. Numa desordem organizada, seguindo o ritmo da vida familiar, oferece um retrato fiel da família. É um gozo para os filhos e os netos folhearem aquelas páginas: aprendem quem são e de onde vieram. Com efeito, para esse fim, todas as fotografias são importantes, até as que, aparentemente, não o sejam.
Assim, é a Bíblia. Tem de tudo: fotografias oficiais e formais, e fotografias descontraídas de episódios insignificantes que nem data têm mais. Algumas delas foram feitas para fins de documentação, a outras só resta a finalidade de arrancar um sorriso de quem as olha. É o fiel retrato de um povo, conservado numa desordem organizada, naquelas páginas antigas, que os filhos e os netos vão folheando, para são e criar , assim, uma consciência de sua pertença a esse povo.

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MESTERS, Carlos. Deus, onde estás? Curso de Bíblia. Belo Horizonte: Editora Veja. p. 1-2. 1972

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A vocação franciscana – parte 1

De início, de modo simples tentarei falar sobre nossa vocação a partir do nosso nome, depois vamos aprofundando ao longo das semanas seguintes até chegarmos em outubro, o mês de São Francisco. Este artigo tem a intenção de encerrar o mês vocacional. O próprio nome da Ordem dada por São Francisco já diz sobre o específico da vocação franciscana: Ordem dos Frades Menores (Conventuais, Capuchinhos ou Observantes[1]).

A Ordem franciscana nasce no seio da Igreja e por isso é designada com o denominativo de Ordem. Toda Ordem o é assim chamada como fator preponderante para seu desempenho eclesial, ou seja, mais do que tudo esse grupo é possuidor de encargo que lhe advém, e por isso não fala, não e não é em seu próprio nome.

Essa Ordem existe para que seus membros sejam irmãos e vivam como irmãos, isto é, como frades. O pai Francisco compreendeu que tudo o que existe, existe porque vem das mãos de Deus. E essa experiência dele configurou toda a sua visão da Ordem e uma mundivisão: nada do que existe não pode não ser nosso irmão ou irmã, todas as criaturas. De Francisco a Ordem dos Frades não pode deixar também de fazer as pessoas entenderem que são envolvidas no todo da Teia da Vida. Somos parte uns dos outros e do todo. O profundo senso de pobreza e humildade a qual a Ordem está incumbida de zelar a partir de Francisco tem como pano de fundo este entendimento de fraternidade e sororidade que nos envolve.

E assim, desenvolvemos o senso de minoridade. No contexto da vivência social de Francisco existia a separação, não muito diferente de hoje, dos maiores ricos e dos pobres menores. Francisco leva em consideração esse fator, e assume como identidade dessa Ordem de frades o ser menor, o estar entre os pobres, o SER pobre, acima de tudo. Ser menor na vida franciscana é condição de vida, estado psicológico, disposição existencial, opção de vida, chamado de Deus, escolha pessoal.

A vocação franciscana se configura a partir de outros âmbitos, mas possuem desdobramentos a partir desses vieses já citados. Antes mesmo da Ordem possuir este nome éramos denominados de os “Penitentes de Assis”, outro fator preponderante da constituição da vocação franciscana.

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[1] Os Observantes normalmente são designados somente com a sigla OFM, mas historicamente podemos chamá-los carinhosamente de Leoninos, devido no dia 04 de outubro 1897 ter havido por parte do Papa Leão XIII, pela bula Felicitate Quadam, a junção das diversas vertentes que haviam se separado dos Frades Menores da Regular Observância (1517) numa única Ordem simpliciter dicti.

domingo, 30 de agosto de 2009

A relacionalidade implicada da vocação

A vocação, mais do que tudo que possa ser teorizado, é o grande dom doado por Deus a todas as pessoas. Mas, na sua configuração essencial, a pessoa é vocacionada a uma vida de relação, consigo mesma, com outro, com Deus e com o cosmo.

Interessante a teoria astrofísica que afirma da relacionalidade biológica. Aplicá-la a noção de vocação não é de todo precipitado. Vejamos o que afirma o jesuíta William Stoeger: “Para que ocorra a evolução biológica, pressupõe-se toda a física e a química, bem como as capacidades auto-organizadoras que fluem desses aspectos fundamentais da natureza. Elas implicam, em cada nível, relações importantes que possibilitam que sistemas novos e mais complexos surjam a partir de sistemas mais fundamentais.”[1]

Da capacidade de organização que a vida cósmica possui conseguimos compreender o milagre da estruturação de todos os sistemas estabelecidos no planeta e no universo. No nível vocacional vemos acontecer algo semelhante, mas nada acontecendo de modo espontâneo. Se, para que ocorra a evolução biológica seja necessário a física e a química e sua auto-organização básica, no chamado divino está implicado o desejo humano da realização da vontade de Deus e do desprendimento de todas as possibilidades de negação do chamado em anseios totalmente (ou somente) particulares[2]. Esse é pressuposto fundamental da vocação divina[3] sem o qual não se maximiza a experiência de Deus como serviço a humanidade.

Portanto, se a pessoa é vocacionada a relação, podemos afirmar que o chamado de Deus não constitui propriedade particular, mas o é de Deus e assim, de todas as pessoas. Isso nos faz compreender que somos seres essencialmente criados para o serviço.
MDT

[2] Não se pode negar de modo algum que, na dimensão da vocação, existe o fator dos projetos pessoais imbricados. Se negássemos isso estaríamos desprovindo o próprio ser humano de seus anseios particulares. Mas quando falamos de vocação temos que colocar como pressuposto essencial que nossos projetos nem sempre correspondem com a realidade tendo que ser acrisolados na fôrma da experiência vivencial.

[3] Vocação divina é a mesma coisa que chamado de Deus considerando a resposta humana implicada na liberdade do chamado.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

UMA FORMA SOCIAL SOLIDÁRIA DE PRODUÇÃO?

Escrito por Luiz Inácio Gaiger

O fenômeno da economia solidária guarda semelhanças com a economia camponesa. Em primeiro lugar, porque as relações sociais de produção desenvolvidas nos empreendimentos econômicos solidários são distintas da forma assalariada. Muito embora, também aqui, os formatos jurídicos e os graus de inovação no conteúdo das relações sejam variáveis e sujeitos à reversão, as práticas de autogestão e cooperação dão a esses empreendimentos uma natureza singular, pois modificam o princípio e a finalidade da extração do trabalho excedente. Assim, aquelas práticas: a) funcionam com base na propriedade social dos meios de produção, vedando a apropriação individual desses meios ou sua alienação particular; b) o controle do empreendimento e o poder de decisão pertencem à sociedade de trabalhadores, em regime de paridade de direitos; c) a gestão do empreendimento está presa à comunidade de trabalho, que organiza o processo produtivo, opera as estratégias econômicas e dispõe sobre o destino do excedente produzido (Verano, 2001). Em suma, há uma unidade entre a posse e o uso dos meios de produção.

De outra parte, o solidarismo mostra-se capaz de converter-se no elemento básico de uma nova racionalidade econômica, apta a sustentar os empreendimentos através de resultados materiais efetivos e de ganhos extra-econômicos. Pesquisas empíricas vêm apontando que a cooperação na gestão e no trabalho, no lugar de contrapor-se aos imperativos de eficiência, atua como vetor de racionalização do processo produtivo, com efeitos tangíveis e vantagens reais, comparativamente ao trabalho individual e à cooperação, entre os assalariados, induzida pela empresa capitalista (Gaiger et al., 1999; Peixoto, 2000). O trabalho consorciado age em favor dos próprios produtores e confere à noção de eficiência uma conotação bem mais ampla, referida igualmente à qualidade de vida dos trabalhadores e à satisfação de objetivos culturais e ético-morais. Esse espírito distingue-se da racionalidade capitalista – que não é solidária e tampouco inclusiva – e da solidariedade popular comunitária – desprovida dos instrumentos adequados a um desempenho sócio-econômico que não seja circunscrito e marginal.
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Texto completo consulte:

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A coragem de uma pessoa justa

Apóio o Senador Eduardo Suplicy, um dos poucos políticos dignos de respeito neste País e estou profundamente irritado, enrraivecido da chacota que estão fazendo de sua atitude em apresentar o cartão vermelho ao Senador José Sarney.

Vergonhoso nada ter sido apurado dos atos secretos do presidente do Senado.

Confesso que é grande a tentação de lançar palavras mais fortes de indignação àquela corja de bandidos..., mas este meio não me permite tal atitude.
Segue e-mail que lhe enviei hoje:
"Querido Senador,
Estou muito satisfeito com sua coragem de não se calar diante dessas vergonhosas cenas em nosso País. Não diminua a voz, não se intimide, pois sua excelência tem nosso irrestrito apoio e força de povo brasileiro.
Não se cale por favor. Grite ainda forte. O senhor é nossa voz. Por favor, grite mais forte... E se lembre de Dom Helder Câmara, que neste dia 27 de agosto lembramos de seu primeiro decênio de morte. Ele não se calou. Grite senador, não se cale, por favor."

terça-feira, 25 de agosto de 2009

A verdade no mundo factual

Por frei Arnaldo Aragão Ofm Conv

Nunca será uma tarefa fácil ver o extraordinário na facticidade da nossa existência, mas fugir dela não é certamente o melhor caminho. O ser humano é contingencial e o seu mundo factual também o é. E nestas relações contingenciais, encontramos as respostas mais significativas para a vida. Diz a canção: “fugir da dor é uma loucura, fugir da dor é fugir da própria cura” – ou ainda – “as idéias estão no chão você tropeça e acha a solução”.
Solução aqui não podemos entendê-la como um resultado final de uma experimentação científica, pelo contrário, é uma pequena flecha que aponta uma possível direção segura, a qual nos permitirá saber, um pouco mais, daquilo que nos provoca espanto. O poeta, o filósofo, o crente, o cientista, o político, o líder, o libertário... estão unidos num único ponto essencial, a saber, a verdade, ou pelo menos deveriam estar, mas acredito que estejam, porque, do contrário, não seriam o que são.
Aqui verdade não é uma solução, nem parte dela, é, porem, algo anterior a todos os nossos questionamentos; ela é a casa do ser humano. Somente quem habita na verdade se liberta, diz Jesus. Sendo assim, nos perguntamos: de que forma Jesus Cristo é a verdade, o caminho e a vida? A resposta somente pode ser a mais óbvia, porque não podemos pensar o caminho, a verdade e a vida fora dele. Tudo tem o seu sentido na pessoa de Jesus. Tudo converge para ele. Neste Jesus não encontramos uma ideia mirabolante, mas o que existe de mais real.
Para entendermos isto é necessário que tenhamos um encontro com Jesus de Nazaré. A partir deste encontro perceberemos a importância do mundo factual. Mundo factual e verdade se encontram sem confusão e sem divisão. Esta casa do ser humano é a condução para a casa definitiva. Somente compreendendo o nosso mundo factual saborearemos a casa definitiva.
Imaginemos uma pessoa que procura uma agulha num quarto escuro. A única certeza que ela tem é que a agulha está no quarto. Porém, a escuridão, isto é, aquilo que não está evidente, atrapalha o encontro com a agulha. Imediatamente um raio ilumina o quarto e desaparece, a pessoa passa a ver aonde está a agulha; com o retorno do raio a escuridão continua, mas agora aquela pessoa sabe mais exatamente em que lugar do quarto o seu objeto se encontra. Jesus é este raio. O quarto é o nosso mundo factual. A agulha é o que de mais precioso devemos buscar para tê-lo conosco sempre. Pensar e agir assim cria uma nova ética, uma nova política, inaugura um novo jeito de ser religioso... traz já a terra prometida para o nosso meio, construindo assim uma sociedade mais justa e fraterna. Porque a verdade liberta.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Sob o poder de um novo deus

A reportagem é de José Castello e publicada pelo jornal Valor, 14-08-2009.

O economista e filósofo escocês Adam Smith (1723-1790) foi o primeiro a falar a respeito de uma "mão invisível" que levaria o mercador ou negociante a, mesmo sem decidir isso, "fazer o bem". Afirma Dufour: "A expressão que emprego - o divino mercado - não é uma metáfora, ela deve ser entendida literalmente: está postulado que existe uma religião natural". De acordo com ela, não é preciso ceder à santidade; basta deixar agir o interesse privado.
Por que um filósofo se interessa pelo estudo da sociedade ultraliberal contemporânea? O motivo é simples: no seu entender, o salto do liberalismo clássico para a sociedade ultraliberal produziu, além de mudanças radicais na realidade econômica e social, uma drástica alteração na noção de sujeito. Ela mudou os parâmetros a partir dos quais o sujeito se constitui.
"As mudanças na economia mercantil não são tão inócuas para a economia psíquica", diz Dufour. Mudou a economia, mudou o sujeito que nela se movimenta. O antigo sujeito que chegava aos consultórios de psicanálise era, em geral, um indivíduo "crítico e neurótico", isto é, guiado pelo desejo de compreender e pela retenção de suas pulsões. Problemas que levava para seu analista.
Afirma Dufour: "O novo sujeito que hoje se apresenta é acrítico e pós-neurótico". Compreender não lhe interessa mais, é algo que, antes disso, o entedia. O mercado promete atender a cada um de seus apetites - logo, em vez de reter as pulsões, ele as "resolve" com o vício, o mais frequente deles por drogas. Esse novo sujeito, acrescenta Dufour, "é levado a adotar condutas perversas (instrumentação do outro em função de seus gozos e interesses pessoais)". E, consequência final, "se ele não consegue fazer isso, ele se deprime, o que acontece frequentemente".
Drogas, perversão, depressão - marcas de um novo sujeito, figura típica de um mundo onde os padrões de regulação social se enfraqueceram ou desapareceram. Cenário despedaçado, nos sugere Dufour, que levou à grave crise financeira de hoje. O novo sujeito, além de tudo, habita um presente contínuo e imóvel. Argumenta Dufour que a nova religião do mercado "deixa um vazio quanto ao velho tormento humano da origem e do fim".Na nova vida ultrapragmática de hoje - extremo paradoxo - há um aumento da necessidade de transcendência. Essa necessidade, alerta o filósofo, "pode permanecer dentro dos limites do razoável, mas pode ir até os delírios fundamentalistas". Não é por acaso, portanto, que o fundamentalismo de vários matizes se espalha pelo planeta; sua disseminação é o avesso de um vazio que a nova realidade do mercado acentua. É o vazio criado pelo deus mercado que exacerba a onda fundamentalista. Ela não passa de sua contrapartida. Assim como a ascensão dos dogmas é o avesso do desprestígio do pensamento crítico.

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domingo, 23 de agosto de 2009

Deus e a cultura moderna - parte 2

Continuação da reflexão do dia 21 de agosto de 2009
Ademais, todo o clima cultural inaugurado no século XVII e XVIII passando por todos os campos do conhecimento determinava o imperialismo do saber prático, da razão instrumental, fundando escolas de pensamentos que difundiam uma nova filosofia e estilo de comportamento e pensamento. Todo este período constitui uma movimentação na vida das religiões incidindo na crítica bíblica, instaurando o reino da razão instrumental, a força dominadora da técnica, primazia da razão instrumental sobre a comunicativa, surge a era da informática; elabora-se um projeto de uma cultura única, racional; imerge o efeito desestruturante das ciências e tecnologias; toda as produções culturais se ocupam de uma elaboração para as massas, até mesmo as religiões, principalmente a cristã; isso tudo desemboca no discurso reivindicando liberdade, a busca da felicidade em contraposição ao discurso religioso sobre a renúncia, do sacrifício, do desprendimento, da abnegação ... e do individualismo.[1] De tudo isso que constatamos, Deus passa a ser uma “hipótese possível” e o clima é este, “armam-se hipóteses, que são submetidas à experimentação e manipulação controlada para processos definidos. Compreende-se o que se experimenta. Experimenta-se o que se experimenta. Experimenta-se o que se constrói.”[2] É neste ambiente em que devemos compreender como o homem concebe a Deus e interpreta a manifestação de na Deus na história, e como este mesmo homem moderno se posta ante esta revelação, porque é de “dentro de suas experiências que o ser humano interpreta a revelação. (...) Em outras palavras, parte-se da pergunta da significação da revelação para o homem de hoje. Isso implica que tal revelação lhe fala a experiência.”[3] Com o advento da modernidade, as religiões, especialmente a cristã ficaram sem saber como trabalhar com essas questões, e aponta a todo este sistema que emergia os pontos de vista escolástico. Houve um trauma no qual ainda deixava a deriva todo um modelo de fé estruturado em dogmas. “O diálogo com o homem moderno se fez difícil.”[4]
Porém, de acordo com a capacidade de integração e inculturação que caracterizou a comunidade dos primeiros cristão, as religiões e o catolicismo de modo especial se procurasse entender a “modernidade unicamente como empecilho à revelação, isto suporia, no fundo, uma interpretação, maquinação da história, como se pudesse haver um tempo histórico de reino do mal. As idades antiga ou medieval seriam tempos de graça e a idade moderna de pecado.”[5] E na verdade, não é isso o que acontece. Como sempre dizemos, “os tempos mudaram” e as religiões precisam aprender que respostas devem ser dadas a todos os homens. O cristianismo, de modo especial, ao apresentar Deus aos modernos necessita de um novo impulso no ânimo para tal empresa. Apenas não se pode, como o fazem aqueles de outras denominações, se utilizar dos meios e discursos econômicos para subornar e causar dependência no povo pela realidade das pessoas que não utilizam da reflexão para saber discernir a verdadeira fé, ou melhor, para seguir de modo conciso uma fé sincera sem ideologias de dominação e escravização rebuscados de tratamentos de uma oratória sem um princípio ético digno.
Contudo, fato evidente aos olhos da era moderna, para além do fenômeno que observamos linhas atrás é o ateísmo conseqüente. Podemos constatar que o ateísmo é fato generalizado. “A primeira vista, nosso mundo aparece como ateu em sua globalidade, de forma que pode dizer-se que o ateísmo é um fenômeno massivo característico de nosso tempo.”[6] É a conseqüência evidente de um período que se entregou à reflexão existencial que possibilitava a hipótese da não existência de Deus e da vida do homem sem ele, não admitindo outra realidade que não seja a fáctica. O que se ventila nas diversas modalidades de reflexão é a busca da compreensão do homem a partir de si mesmo e por si mesmo. A questão da autonomia da reflexão do homem em relação a Deus é fator que existe na realidade contemporânea que não se pode deixar de lado. Na atualidade existe o forte apelo a autonomia, a uma compreensão da liberdade bem específica, a independência financeira ao direito individual, a privacidade. Confirma Juan Lucas: “Trata-se de uma nova forma de humanismo que impulsiona à humanidade até a sua maioridade, rechaçando toda dependência e aspirando a uma autonomia completa do destino.”[7]
MDT
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[1] cf. LIBANIO, João Batista. Teologia da revelação a partir da modernidade. São Paulo: Loyola, 1992. p. 147
[2] LIBANIO, 1992, p. 117
[3] id. Ibid., p. 167
[4] id. Ibid., p. 167
[5] id. Ibid., p. 168
[6] LUCAS, op., cit., p. 284
[7] id. Ibid., p. 284

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Deus e a cultura moderna - parte 1

Desejo aqui explanar o relacionamento que o homem moderno procura estabelecer com Deus e a configuração da mens atual: uma sociedade toda globalizada e interligada mundialmente.

O estudo da configuração religiosa que a cultura moderna estabelece é uma tentativa de conhecer o que o ser humano atual é capaz de fazer ao construir vínculo com a divindade. Aqui não se exclui de modo algum a experiência religiosa pessoal, pois essa é uma construção que pode ser feita independente, mas que na maioria das vezes possui uma dependência cultural das estruturas sociais. Afirma Libânio: “A modernidade é mais que um simples momento da história. É um horizonte em que vivemos e dentro do qual praticamos nossa fé.”[1]
A sociedade atual elabora um discurso em que prevalece a soberania da razão, do verificável, daquilo que surge efeito, produz resultados. Até mesmo a busca da religiosidade vai nessa direção. Somente vale a pena participar de uma religião na qual eu consigo algum benefício pessoal, seja cura, seja enriquecimento material, dentre outros benefícios. Tudo tem que ser “quantificável” de algum modo. Libânio reafirma o império da razão: “A modernidade é, antes de tudo, o triunfo da razão.”[2] Da razão chamada prática que -- “institui-se em instância crítica das tradições e autoridade, ao fundar-se sobretudo na verdade da experiência científica, que se constitui através da observação do real”[3] – pode-se constatar uma “criminalização” da experiência religiosa da pessoa que se põe na busca do conhecimento de Deus.
Aqui faz-se mister estudar a distinção entre a fé no “Deus concreto” da revelação e essa compreensão moderna da razão prático-científica da constatação e experimentação. Para o pensamento moderno a revelação pertence à infância da cultura. Sua posição é assumida pelo reino da razão positiva.[4] Toda a concepção de revelação cunhada pela fé da experiência no Deus do povo de Israel perde sentido pois a Deus não se pode tocar e para superá-lo nós podemos explicar a origem das coisas pela evolução da vida dos homens, da história. Por ora, compete-nos conhecer essa razão que cobra experiência, constatação, porém, descarta outro modo de conhecimento e de experenciação da realidade.
MDT
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[1] LIBANIO, João Batista. Teologia da revelação a partir da modernidade. São Paulo: Loyola, 1992. p. 113
[2] id. ibid., 1992, p. 117
[3] id. Ibid., 1992, p. 117
[4] cf. LIBANIO, op. Cit., p. 117