domingo, 30 de agosto de 2009

A relacionalidade implicada da vocação

A vocação, mais do que tudo que possa ser teorizado, é o grande dom doado por Deus a todas as pessoas. Mas, na sua configuração essencial, a pessoa é vocacionada a uma vida de relação, consigo mesma, com outro, com Deus e com o cosmo.

Interessante a teoria astrofísica que afirma da relacionalidade biológica. Aplicá-la a noção de vocação não é de todo precipitado. Vejamos o que afirma o jesuíta William Stoeger: “Para que ocorra a evolução biológica, pressupõe-se toda a física e a química, bem como as capacidades auto-organizadoras que fluem desses aspectos fundamentais da natureza. Elas implicam, em cada nível, relações importantes que possibilitam que sistemas novos e mais complexos surjam a partir de sistemas mais fundamentais.”[1]

Da capacidade de organização que a vida cósmica possui conseguimos compreender o milagre da estruturação de todos os sistemas estabelecidos no planeta e no universo. No nível vocacional vemos acontecer algo semelhante, mas nada acontecendo de modo espontâneo. Se, para que ocorra a evolução biológica seja necessário a física e a química e sua auto-organização básica, no chamado divino está implicado o desejo humano da realização da vontade de Deus e do desprendimento de todas as possibilidades de negação do chamado em anseios totalmente (ou somente) particulares[2]. Esse é pressuposto fundamental da vocação divina[3] sem o qual não se maximiza a experiência de Deus como serviço a humanidade.

Portanto, se a pessoa é vocacionada a relação, podemos afirmar que o chamado de Deus não constitui propriedade particular, mas o é de Deus e assim, de todas as pessoas. Isso nos faz compreender que somos seres essencialmente criados para o serviço.
MDT

[2] Não se pode negar de modo algum que, na dimensão da vocação, existe o fator dos projetos pessoais imbricados. Se negássemos isso estaríamos desprovindo o próprio ser humano de seus anseios particulares. Mas quando falamos de vocação temos que colocar como pressuposto essencial que nossos projetos nem sempre correspondem com a realidade tendo que ser acrisolados na fôrma da experiência vivencial.

[3] Vocação divina é a mesma coisa que chamado de Deus considerando a resposta humana implicada na liberdade do chamado.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

UMA FORMA SOCIAL SOLIDÁRIA DE PRODUÇÃO?

Escrito por Luiz Inácio Gaiger

O fenômeno da economia solidária guarda semelhanças com a economia camponesa. Em primeiro lugar, porque as relações sociais de produção desenvolvidas nos empreendimentos econômicos solidários são distintas da forma assalariada. Muito embora, também aqui, os formatos jurídicos e os graus de inovação no conteúdo das relações sejam variáveis e sujeitos à reversão, as práticas de autogestão e cooperação dão a esses empreendimentos uma natureza singular, pois modificam o princípio e a finalidade da extração do trabalho excedente. Assim, aquelas práticas: a) funcionam com base na propriedade social dos meios de produção, vedando a apropriação individual desses meios ou sua alienação particular; b) o controle do empreendimento e o poder de decisão pertencem à sociedade de trabalhadores, em regime de paridade de direitos; c) a gestão do empreendimento está presa à comunidade de trabalho, que organiza o processo produtivo, opera as estratégias econômicas e dispõe sobre o destino do excedente produzido (Verano, 2001). Em suma, há uma unidade entre a posse e o uso dos meios de produção.

De outra parte, o solidarismo mostra-se capaz de converter-se no elemento básico de uma nova racionalidade econômica, apta a sustentar os empreendimentos através de resultados materiais efetivos e de ganhos extra-econômicos. Pesquisas empíricas vêm apontando que a cooperação na gestão e no trabalho, no lugar de contrapor-se aos imperativos de eficiência, atua como vetor de racionalização do processo produtivo, com efeitos tangíveis e vantagens reais, comparativamente ao trabalho individual e à cooperação, entre os assalariados, induzida pela empresa capitalista (Gaiger et al., 1999; Peixoto, 2000). O trabalho consorciado age em favor dos próprios produtores e confere à noção de eficiência uma conotação bem mais ampla, referida igualmente à qualidade de vida dos trabalhadores e à satisfação de objetivos culturais e ético-morais. Esse espírito distingue-se da racionalidade capitalista – que não é solidária e tampouco inclusiva – e da solidariedade popular comunitária – desprovida dos instrumentos adequados a um desempenho sócio-econômico que não seja circunscrito e marginal.
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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A coragem de uma pessoa justa

Apóio o Senador Eduardo Suplicy, um dos poucos políticos dignos de respeito neste País e estou profundamente irritado, enrraivecido da chacota que estão fazendo de sua atitude em apresentar o cartão vermelho ao Senador José Sarney.

Vergonhoso nada ter sido apurado dos atos secretos do presidente do Senado.

Confesso que é grande a tentação de lançar palavras mais fortes de indignação àquela corja de bandidos..., mas este meio não me permite tal atitude.
Segue e-mail que lhe enviei hoje:
"Querido Senador,
Estou muito satisfeito com sua coragem de não se calar diante dessas vergonhosas cenas em nosso País. Não diminua a voz, não se intimide, pois sua excelência tem nosso irrestrito apoio e força de povo brasileiro.
Não se cale por favor. Grite ainda forte. O senhor é nossa voz. Por favor, grite mais forte... E se lembre de Dom Helder Câmara, que neste dia 27 de agosto lembramos de seu primeiro decênio de morte. Ele não se calou. Grite senador, não se cale, por favor."

terça-feira, 25 de agosto de 2009

A verdade no mundo factual

Por frei Arnaldo Aragão Ofm Conv

Nunca será uma tarefa fácil ver o extraordinário na facticidade da nossa existência, mas fugir dela não é certamente o melhor caminho. O ser humano é contingencial e o seu mundo factual também o é. E nestas relações contingenciais, encontramos as respostas mais significativas para a vida. Diz a canção: “fugir da dor é uma loucura, fugir da dor é fugir da própria cura” – ou ainda – “as idéias estão no chão você tropeça e acha a solução”.
Solução aqui não podemos entendê-la como um resultado final de uma experimentação científica, pelo contrário, é uma pequena flecha que aponta uma possível direção segura, a qual nos permitirá saber, um pouco mais, daquilo que nos provoca espanto. O poeta, o filósofo, o crente, o cientista, o político, o líder, o libertário... estão unidos num único ponto essencial, a saber, a verdade, ou pelo menos deveriam estar, mas acredito que estejam, porque, do contrário, não seriam o que são.
Aqui verdade não é uma solução, nem parte dela, é, porem, algo anterior a todos os nossos questionamentos; ela é a casa do ser humano. Somente quem habita na verdade se liberta, diz Jesus. Sendo assim, nos perguntamos: de que forma Jesus Cristo é a verdade, o caminho e a vida? A resposta somente pode ser a mais óbvia, porque não podemos pensar o caminho, a verdade e a vida fora dele. Tudo tem o seu sentido na pessoa de Jesus. Tudo converge para ele. Neste Jesus não encontramos uma ideia mirabolante, mas o que existe de mais real.
Para entendermos isto é necessário que tenhamos um encontro com Jesus de Nazaré. A partir deste encontro perceberemos a importância do mundo factual. Mundo factual e verdade se encontram sem confusão e sem divisão. Esta casa do ser humano é a condução para a casa definitiva. Somente compreendendo o nosso mundo factual saborearemos a casa definitiva.
Imaginemos uma pessoa que procura uma agulha num quarto escuro. A única certeza que ela tem é que a agulha está no quarto. Porém, a escuridão, isto é, aquilo que não está evidente, atrapalha o encontro com a agulha. Imediatamente um raio ilumina o quarto e desaparece, a pessoa passa a ver aonde está a agulha; com o retorno do raio a escuridão continua, mas agora aquela pessoa sabe mais exatamente em que lugar do quarto o seu objeto se encontra. Jesus é este raio. O quarto é o nosso mundo factual. A agulha é o que de mais precioso devemos buscar para tê-lo conosco sempre. Pensar e agir assim cria uma nova ética, uma nova política, inaugura um novo jeito de ser religioso... traz já a terra prometida para o nosso meio, construindo assim uma sociedade mais justa e fraterna. Porque a verdade liberta.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Sob o poder de um novo deus

A reportagem é de José Castello e publicada pelo jornal Valor, 14-08-2009.

O economista e filósofo escocês Adam Smith (1723-1790) foi o primeiro a falar a respeito de uma "mão invisível" que levaria o mercador ou negociante a, mesmo sem decidir isso, "fazer o bem". Afirma Dufour: "A expressão que emprego - o divino mercado - não é uma metáfora, ela deve ser entendida literalmente: está postulado que existe uma religião natural". De acordo com ela, não é preciso ceder à santidade; basta deixar agir o interesse privado.
Por que um filósofo se interessa pelo estudo da sociedade ultraliberal contemporânea? O motivo é simples: no seu entender, o salto do liberalismo clássico para a sociedade ultraliberal produziu, além de mudanças radicais na realidade econômica e social, uma drástica alteração na noção de sujeito. Ela mudou os parâmetros a partir dos quais o sujeito se constitui.
"As mudanças na economia mercantil não são tão inócuas para a economia psíquica", diz Dufour. Mudou a economia, mudou o sujeito que nela se movimenta. O antigo sujeito que chegava aos consultórios de psicanálise era, em geral, um indivíduo "crítico e neurótico", isto é, guiado pelo desejo de compreender e pela retenção de suas pulsões. Problemas que levava para seu analista.
Afirma Dufour: "O novo sujeito que hoje se apresenta é acrítico e pós-neurótico". Compreender não lhe interessa mais, é algo que, antes disso, o entedia. O mercado promete atender a cada um de seus apetites - logo, em vez de reter as pulsões, ele as "resolve" com o vício, o mais frequente deles por drogas. Esse novo sujeito, acrescenta Dufour, "é levado a adotar condutas perversas (instrumentação do outro em função de seus gozos e interesses pessoais)". E, consequência final, "se ele não consegue fazer isso, ele se deprime, o que acontece frequentemente".
Drogas, perversão, depressão - marcas de um novo sujeito, figura típica de um mundo onde os padrões de regulação social se enfraqueceram ou desapareceram. Cenário despedaçado, nos sugere Dufour, que levou à grave crise financeira de hoje. O novo sujeito, além de tudo, habita um presente contínuo e imóvel. Argumenta Dufour que a nova religião do mercado "deixa um vazio quanto ao velho tormento humano da origem e do fim".Na nova vida ultrapragmática de hoje - extremo paradoxo - há um aumento da necessidade de transcendência. Essa necessidade, alerta o filósofo, "pode permanecer dentro dos limites do razoável, mas pode ir até os delírios fundamentalistas". Não é por acaso, portanto, que o fundamentalismo de vários matizes se espalha pelo planeta; sua disseminação é o avesso de um vazio que a nova realidade do mercado acentua. É o vazio criado pelo deus mercado que exacerba a onda fundamentalista. Ela não passa de sua contrapartida. Assim como a ascensão dos dogmas é o avesso do desprestígio do pensamento crítico.

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domingo, 23 de agosto de 2009

Deus e a cultura moderna - parte 2

Continuação da reflexão do dia 21 de agosto de 2009
Ademais, todo o clima cultural inaugurado no século XVII e XVIII passando por todos os campos do conhecimento determinava o imperialismo do saber prático, da razão instrumental, fundando escolas de pensamentos que difundiam uma nova filosofia e estilo de comportamento e pensamento. Todo este período constitui uma movimentação na vida das religiões incidindo na crítica bíblica, instaurando o reino da razão instrumental, a força dominadora da técnica, primazia da razão instrumental sobre a comunicativa, surge a era da informática; elabora-se um projeto de uma cultura única, racional; imerge o efeito desestruturante das ciências e tecnologias; toda as produções culturais se ocupam de uma elaboração para as massas, até mesmo as religiões, principalmente a cristã; isso tudo desemboca no discurso reivindicando liberdade, a busca da felicidade em contraposição ao discurso religioso sobre a renúncia, do sacrifício, do desprendimento, da abnegação ... e do individualismo.[1] De tudo isso que constatamos, Deus passa a ser uma “hipótese possível” e o clima é este, “armam-se hipóteses, que são submetidas à experimentação e manipulação controlada para processos definidos. Compreende-se o que se experimenta. Experimenta-se o que se experimenta. Experimenta-se o que se constrói.”[2] É neste ambiente em que devemos compreender como o homem concebe a Deus e interpreta a manifestação de na Deus na história, e como este mesmo homem moderno se posta ante esta revelação, porque é de “dentro de suas experiências que o ser humano interpreta a revelação. (...) Em outras palavras, parte-se da pergunta da significação da revelação para o homem de hoje. Isso implica que tal revelação lhe fala a experiência.”[3] Com o advento da modernidade, as religiões, especialmente a cristã ficaram sem saber como trabalhar com essas questões, e aponta a todo este sistema que emergia os pontos de vista escolástico. Houve um trauma no qual ainda deixava a deriva todo um modelo de fé estruturado em dogmas. “O diálogo com o homem moderno se fez difícil.”[4]
Porém, de acordo com a capacidade de integração e inculturação que caracterizou a comunidade dos primeiros cristão, as religiões e o catolicismo de modo especial se procurasse entender a “modernidade unicamente como empecilho à revelação, isto suporia, no fundo, uma interpretação, maquinação da história, como se pudesse haver um tempo histórico de reino do mal. As idades antiga ou medieval seriam tempos de graça e a idade moderna de pecado.”[5] E na verdade, não é isso o que acontece. Como sempre dizemos, “os tempos mudaram” e as religiões precisam aprender que respostas devem ser dadas a todos os homens. O cristianismo, de modo especial, ao apresentar Deus aos modernos necessita de um novo impulso no ânimo para tal empresa. Apenas não se pode, como o fazem aqueles de outras denominações, se utilizar dos meios e discursos econômicos para subornar e causar dependência no povo pela realidade das pessoas que não utilizam da reflexão para saber discernir a verdadeira fé, ou melhor, para seguir de modo conciso uma fé sincera sem ideologias de dominação e escravização rebuscados de tratamentos de uma oratória sem um princípio ético digno.
Contudo, fato evidente aos olhos da era moderna, para além do fenômeno que observamos linhas atrás é o ateísmo conseqüente. Podemos constatar que o ateísmo é fato generalizado. “A primeira vista, nosso mundo aparece como ateu em sua globalidade, de forma que pode dizer-se que o ateísmo é um fenômeno massivo característico de nosso tempo.”[6] É a conseqüência evidente de um período que se entregou à reflexão existencial que possibilitava a hipótese da não existência de Deus e da vida do homem sem ele, não admitindo outra realidade que não seja a fáctica. O que se ventila nas diversas modalidades de reflexão é a busca da compreensão do homem a partir de si mesmo e por si mesmo. A questão da autonomia da reflexão do homem em relação a Deus é fator que existe na realidade contemporânea que não se pode deixar de lado. Na atualidade existe o forte apelo a autonomia, a uma compreensão da liberdade bem específica, a independência financeira ao direito individual, a privacidade. Confirma Juan Lucas: “Trata-se de uma nova forma de humanismo que impulsiona à humanidade até a sua maioridade, rechaçando toda dependência e aspirando a uma autonomia completa do destino.”[7]
MDT
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[1] cf. LIBANIO, João Batista. Teologia da revelação a partir da modernidade. São Paulo: Loyola, 1992. p. 147
[2] LIBANIO, 1992, p. 117
[3] id. Ibid., p. 167
[4] id. Ibid., p. 167
[5] id. Ibid., p. 168
[6] LUCAS, op., cit., p. 284
[7] id. Ibid., p. 284