domingo, 2 de janeiro de 2011

ARRISCAR-SE NUMA SAÍDA RUMO AO DESCONHECIDO - PARTE III

Aqui se revela um Deus que pede ao homem que ele creia. E esta fé não tem nada que ver com a aceitação racionalizada de fórmulas de artigos de fé.
Deus não perguntou por dogmas. As leis formuladas por zelosos doutores da Lei e teólogos fundamentalistas deixaram-no indiferente.
O Deus desconhecido revela-se um Deus com qualidades extremamente incômodas.
Seu pedido de fé não se refere a um “aceitar como verdadeiros” certos princípios. Nada disso. O que ele quer são decisões que mudam a vida. Orientação da vida para ele, ruptura de estruturas cimentadas.
Em lugar das certezas, as dúvidas.
E em vez de indicações exatas do rumo a seguir, apenas as palavras: “Eu mostrarei para onde!”.
Mas não só isso.
O mostrar não acontece num distante descompromisso.
Quando o homem parte Deus parte com ele. Eu estarei contigo!
Quando Deus chama, não abandona.
Experiência feliz e ao mesmo tempo assustadora, pois este Deus segue caminhos bem diferentes dos que o homem gostaria de trilhar: Meus pensamentos não são os vossos pensamentos e meus caminhos não são os vossos caminhos.
Abraão experimentou isso e depois dele gerações de outros que ousaram relacionar-se com ele, que sucumbiram a ele e suas seduções atrativas, seduzidos, inquietos, apaixonados, lançaram sua vida na grande aventura: DEUS.
Eu estarei contigo!
Em que medida Abraão depois se arrependeu da sua decisão e da sua partida, quando por ordem desse Deus levou seu próprio filho ao monte para ali sacrificá-lo, é um mistério sobre o qual nada sabemos. Era tudo uma prova, e Abraão superou-a. Não vamos discutir se realmente assim aconteceu. Mas a mensagem permanece: Deus prova!
E quando ele prova, àquele que é provado não resta mais nada de cantos angélicos e do Deus amoroso – só resta a noite do não-entender. Meus caminhos não são os vossos caminhos!
A partida não ocorre sem sofrimento. A escuridão para dentro da qual Deus chama não é uma frase vazia, mas experiência real do tormento. Tentação para a revolta. Assim não! O sim retratado. “Se tivéssemos permanecido junto às nossas panelas cheias de carne do Egito!” Abandonar aquilo a que nos acostumamos não é fácil.
Eu creio! Uma frase perigosa; quem a pronuncia pense bem!
Com Moisés temos o seguinte: Deus escolhe alguém, que não sabe falar, para falar diante do rei do Egito. É possível que assim fosse, mas não é essencial, pois toda personalidade de Moisés é tão inadequada para a missão que nenhuma pessoa sensata teria idéia de escolhê-lo. Com ou sem gagueira. Pois quem se dirigia a um criminoso foragido, quando se trata de negociar com o senhor supremo e príncipe do país? Logo se pensaria em diplomatas ou dignatários da corte.
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(Renold Blank: Deus: uma proposta alternativa. Paulus: 1999.)
Publicação devidamente autorizada pelo autor.
Esta é a última parte de seu magnífico texto. Obrigado ao professor Blank pela generosidade de patilhar sua experiência com palavras tão simples e profundas ao mesmo tempo.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O Natal dos "sábios" e dos pastores...

Os primeiros que vieram ao pé de Jesus na manjedoura e puderam encontrar o Redentor do mundo foram os pastores, as almas simples. Os sábios vindos do Oriente, os representantes daqueles que possuem nível e nome chegaram muito mais tarde. O motivo é totalmente óbvio.
De fato, os pastores habitavam perto.
Não tinham de fazer mais nada senão «atravessar» (cf. Lc 2, 15), como se atravessa um breve espaço para ir ter com os vizinhos.
Ao contrário, os sábios habitavam longe. Tinham de percorrer um caminho longo e difícil para chegar a Belém. E precisavam de guia e de orientação.
Pois bem, hoje também existem almas simples e humildes que habitam muito perto do Senhor. São, por assim dizer, os seus vizinhos e podem facilmente ir ter com Ele.
Mas a maior parte de nós, homens modernos, vive longe de Jesus Cristo, d’Aquele que Se fez homem, de Deus que veio para o nosso meio.
Vivemos em filosofias, em negócios e ocupações que nos enchem totalmente e a partir dos quais o caminho para a manjedoura é muito longo. De variados modos e repetidamente, Deus tem de nos impelir e dar uma mão para podermos sair da enrodilhada dos nossos pensamentos e ocupações e encontrar o caminho para Ele.
Mas há um caminho para todos. Para todos, o Senhor estabelece sinais adequados a cada um. Chama-nos a todos, para que nos seja possível também dizer:
Levantemo-nos, «atravessemos», vamos a Belém, até junto d’Aquele Deus que veio ao nosso encontro. Sim, Deus encaminhou-Se para nós.
Sozinhos, não poderíamos chegar até Ele.
O caminho supera as nossas forças.
Mas Deus desceu. Vem ao nosso encontro. Percorreu a parte mais longa do caminho. Agora pede-nos: Vinde e vede quanto vos amo. Vinde e vede que Eu estou aqui. Atravessemos para o outro lado! Ultrapassemo-nos a nós mesmos! Façamo-nos viandantes rumo a Deus dos mais variados modos: sentindo-nos interiormente a caminho para Ele;
mas também em caminhos muito concretos, como na Liturgia da Igreja, no serviço do próximo onde Cristo me espera.

«Nasceu-vos hoje, na cidade de Davi, um Salvador, que é o Messias Senhor» (Lc 2, 11). O Senhor está presente. Desde então, Deus é verdadeiramente um «Deus conosco». Já não é o Deus distante, que, através da criação e por meio da consciência, se pode de algum modo intuir de longe. Ele entrou no mundo. É o Vizinho. Disse-o Cristo ressuscitado aos Seus, a nós: «Eu estou sempre convosco, até ao fim dos tempos» (Mt 28, 20).
(Bento XVI)

FELIZ NATAL E NO PRÓXIMO ANO ABRA SEMPRE MAIS O SEU CORAÇÃO AO MISTÉRIO DO AMOR VINDO A NÓS NA POBREZA DA MANJEDOURA!
SEJA FORTE!
SEJA FELIZ!
SEMPRE O AMOR!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

ARRISCAR-SE NUMA SAÍDA RUMO AO DESCONHECIDO - PARTE II

(Divulgação devidamente autorizida pelo autor.)

De um Deus que aborda pessoalmente o homem. Mas que o desafia para um risco.
E com isso voltamos novamente à imagem desse Deus, que se manifesta na revelação.
Não um Deus caseiro.
Muito ao contrário, um Deus que chama para o novo, que não deixa o homem descansar porque ele próprio é dinâmico. Isso parece tão bonito e na era da juventude efetivamente entendemos bastante esse traço característico.
E ao contrário dos planos de viagens do Itaú-Turismo na sua oferta publicitária, não há nenhum destino.
“Toma teus rebanhos e todos os teus bens e parte para uma terra que eu te mostrarei!”
Nada de praias ensolaradas com pin-up-girls. Goze a beleza de Miame. Falta até pôr-do-sol com tamareiras no fundo.
Em vez disso, apenas uma palavra: eu te mostrarei para onde. Nada mais.
Nenhum destino final.
Será possível determinar o infinito?
Partida rumo ao desconhecido, comparável ao caminho do homem para a utopia de uma vida ainda não vivida.
Como se Deus já aqui tivesse em vista aquele indeterminado, aquela cobertura para um projeto ainda a ser realizado.
Isso seria uma justificação pedagógica para o modo de seu agir, talvez até haja algo de verdade nisso; uma explicação para esta evidente propriedade de Deus, que o torna tão difícil, então e agora:
Ele deixa a saída aberta.
Não oferece metas fixas.
Oferece só a si:
“Vai, e, quando fores, te mostrarei para onde!”.
Este chamado implica atividade do homem.
Um chamado para a criatividade e a iniciativa própria.
Um Deus que ama o risco!
Quem não parte e não se põe a caminho também não recebe nenhuma orientação sobre o rumo a seguir.
Mas quem ousa e vai não tem nada na mão que possa justificar o seu caminhar.
Mostrar-te-ei para onde!
Quem empreende alguma coisa atendendo tal palavra é um louco. Mas parece que é exatamente isso que Deus quer. Uma segunda propriedade. Por assim dizer uma “mania” do Deus que se revela a Abraão.
Quer que o homem se entregue a ele sem nenhuma reserva. Isso não é fácil. Nem hoje nem naquele tempo. Afinal, como é que ficam os princípios do pensamento econômico, do planejamento da sociedade de consumo, orientada para o desenvolvimento, ou simplesmente a lógica?
Permanece uma mensagem.
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Renold Blank: Deus: uma proposta alternativa. Paulus: 1999. Adaptação das pgs. 18-29

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

ARRISCAR-SE NUMA SAÍDA RUMO AO DESCONHECIDO - Parte I

Paz e bem a todos
A partir de hoje, numa seqüência de três partes, nos enriqueceremos com as palavras do professor Renold Blank. A publicação foi gentilmente autorizada pelo autor.

A aventura com Deus, iniciada na dúvida e sob protesto. Certamente nada de grandes iluminações, nada de vozes no sonho. Nem hoje, nem naquele tempo, no século 17 aC , quando um homem parte e com todo seu clã deixa a saturada tranqüilidade de uma riqueza bem adquirida.
Fala-se de Ur na Caldéia.
Nas pastagens junto ao Eufrates ou no escritório da construtora BBC. Nenhuma provável aparição, nem aqui nem lá; e nenhuma voz no sonho, apesar da bela história. Mas, um dia, um homem se faz no caminho, apesar de todas as resistências. E apesar dos protestos das filhas e dos genros.
E se for perguntado para onde vai, não sabe responder.
Mas parte porque Deus o chamou. Porque não lhe deixou descanso, talvez durante anos, enquanto estava sentado diante de sua tenda ou na varanda da casa alugada e sonhava ao pôr-do-sol.
É isso espantoso nessa figura, sobre a qual os estudiosos da Bíblia e os historiadores da civilização ainda hoje continuam a discutir. O que ela encerra não se deixa enquadrar no curso secular dos fatos administrados entre nascimento e morte. Em meio à segurança de um país rico e próspero irrompe um perturbador, que não quer calar e não quer ouvir os argumentos da razão e as objeções dos genros; e esse perturbador é Deus. Já no começo da história da sua ação com os homens, esse Deus aparece como alguém que perturba o descanso.
O descanso de Abraão diante de sua tenda e o dos turistas fotógrafos: o Deus desconhecido, em gótico ou renascentista, concreto armado do fim do século XX ou tijolos nas capelas das fazendas dos latifundiários do Peru, na Argentina e no Brasil. Os sem-terra são enxotados com polícia e cães, e, se o padre não quiser mais rezar a missa, também terá de fugir.
E para dentro dessa realidade Deus lança o seu chamado e começa com o homem uma aventura cujo fim não é previsível. Sobretudo para o envolvido. Talvez esteja aqui o caráter perpetuamente intrigante da história de Abraão. Este Deus revela-se um Deus que age. Um Deus que toma a iniciativa a despeito do bom senso da argumentação lógica, a despeito também das filhas o dos genros, que provavelmente devem ter murmurado entre si contra o velho, “mania de velho”, “agora totalmente caduco”, naqueles dias de partida, cochichando pelos cantos da casa.
O velho não se deixou desviar, e nisso está a grandeza que o transformou em protótipo de todos aqueles que tem fé.
Partida rumo ao desconhecido.
Partida rumo a novas margens, mesmo que essas margens ainda sejam desconhecidas.
Partida, simplesmente seguindo a palavra de um Deus que chama e vocaciona.
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Renold Blank: Deus: uma proposta alternativa. Paulus: 1999. Adaptação das pgs. 18-29

sábado, 23 de outubro de 2010

Discípulo missionário em busca do sentido da vida

Do sentido vive o ser humano. Qualquer pessoa, de qualquer nacionalidade, seja qual idade estiver, está a “mendigar” um sentido profundo para a vida. Do ver a luz pela primeira vez ao fechar último dos olhos estamos buscando.
A nossa fé, ensinada por Jesus e tornada mandato para difusão a todo o mundo, está plenamente envolvida desta intenção: ser sentido para o humano e o sentido mais profundo, pois deixamos de lado a epidérmica compreensão da vida para ir ao fundo da existência. Em Jesus temos uma certeza: Deus está presente junto a nós em nossa vida, caminha conosco, faz história na nossa história pessoal e social.
Mas não podemos dizer isso apenas como uma notícia de jornal. Temos que sentir na carne que Deus, o Senhor que me dá a vida, e não coisas simplesmente, este nosso Deus que se dá a si mesmo, sem medo do que faremos com Ele, suplica de todos nós humanos uma disposição de arriscar-se Nele, deixar tudo, segui-Lo num amor sem condições.
Estes tempos em que vivemos, o mundo (as pessoas) precisamos de cristãos que dêem um grande testemunho de amor por Deus-Amor. Seremos significativos para a sociedade de hoje na medida em que não medirmos esforços na luta pela implantação do Reino de Deus no meio dos homens.
Mas para isso precisamos de uma compreensão profunda do Reino. A preocupação central de Jesus em seu ministério foi a difusão do Reino. Essa é a expressão correta: DIFUSÃO DO REINO DE DEUS. Então, em que consiste o Reino: segundo o Evangelho é o mundo transformado pela vivência concreta da justiça, numa vida impregnada pelo sentido do amor que distribui igualitariamente todos os bens da terra a todos os homens. Tudo isso é u-topia (não-lugar, significado desta palavra)? Resposta: NÃO! Isso é nossa missão como cristãos, de continuar, como mandato, o que Jesus começou. O Reino de Deus NÃO É algo que devemos esperar para o futuro, mas é realidade que tem que acontecer já, pois “o Reino de Deus, como disse Jesus, está em vosso meio.” O Reino não constitui um território, mas o modo de atuar de Deus, mediante o qual se faz senhor sobre toda a sua criação. Reino de Deus é o sentido das coisas, de tudo e do todo voltado para Deus (Boff).
Isso cobre de sentido a vida das pessoas, pois não é apenas esforço para mudar o exterior, mas empenho de mudar-se a si mesmo conjuntamente: mudar toda vida, desde o interior, que assim, se difundirá na vida das pessoas todas.
Deus quer participar de nossa vida, para isso basta que arrebentemos a tranca que fecha a porta da nossa vida e deixemos que Ele arme em nós sua tenda (Jo 1). Daí sim saberemos o que é felicidade, o que é vida rica de sentido, o que é deixar tudo para seguir o mestre Jesus...
Avancemos, pois como afirmou São Francisco no final de sua vida, é preciso começar, pois até agora pouco ou nada fizemos! CORAGEM!
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MDT

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Uma animação vocacional que forma discípulos missionários


(Documento de preparação ao 3º Congresso Vocacional do Brasil 2010)
Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada - CNBB

87. A vocação ao discipulado missionário é convocação à comunhão em sua Igreja. No processo de formação dos discípulos missio­nários de Jesus Cristo um lugar particular tem a pastoral vocacio­nal que acompanha cuidadosamente todos os que o Senhor chama a servir à Igreja no sacerdócio, na vida consagrada ou no estado laical. Diz Aparecida que este serviço vocacional é responsabi­lidade de todo o povo de Deus. Inicia na família, continua na co­munidade cristã, dirige-se às crianças e especialmente aos jovens. Finalidade dessa pastoral é ajudar a descobrir o sentido da vida e o projeto que Deus tem para cada um, acompanhando-os em seu processo de discernimento.

88. O Documento de Aparecida contempla os elementos fundamen­tais do serviço de animação vocacional, como o entendemos hoje, a saber:

1) responsabilidade de toda a Igreja, o povo de Deus;
2) integrada na pastoral ordinária, de conjunto e orgânica;
3) a dimensão eclesial e específica da vocação dos discípulos missionários a par­tir do Batismo e do sacerdócio comum (ministros ordenados, vida consagrada, cristãos leigos e leigas);
4) o ambiente propício para o flo­rescimento da vocação, a família e a comunidade cristã, completa­do pela escola católica e demais instituições eclesiais;
5) os interlocu­tores imediatos da animação vocacional, as crianças e os jovens;
6) a necessidade de um processo de acompanhamento e discernimento;
7) e a mesma natureza da animação vocacional, que consiste em aju­dar a descobrir o sentido da vida, a vocação, no projeto que Deus tem para cada um.

91. Discípulo é aquele que se coloca a caminho no seguimento de um mestre, aprendendo dele e condividindo com ele ideais e projetos de vida. Na perspectiva da fé cristã o discipulado consiste em se­guir uma pessoa porque se ama, completada sempre com a missão. Por isso que todo discípulo é missionário. O discípulo é alguém chamado por Jesus Cristo para com ele conviver, participar de sua Vida, unir-se à sua Pessoa e aderir à sua missão, colaborando com ela. Na Igreja, os discípulos missionários têm vocações específi­cas (vida leiga, vida consagrada e o sacerdócio ministerial) e são chamados ao fiel cumprimento de sua vocação batismal. De fato a condição do discípulo brota de Jesus Cristo como de sua fonte, pela fé e pelo batismo, e cresce na Igreja, comunidade onde todos os seus membros adquirem igual dignidade e participam de diversos ministérios e carismas. Desse modo, realiza-se na Igreja a forma própria e específica de viver a santidade batismal a serviço do Reino de Deus.

domingo, 3 de outubro de 2010

A vocação de nosso Irmão Francisco, da cidade de Assis

Estamos a adentrar o mês das missões, e logo no seu início, no dia 04 de outubro, vamos celebrar a solenidade deste grande homem da história da humanidade chamado Francisco. E nossa paróquia da Exaltação da Santa Cruz, por ser de tradição franciscana não pode deixar de festejar esse nosso grande amigo, amante do Crucificado.
Nascido no vale da Úmbria, na cidade de Assis, ele levou vida bastante “folgada” na juventude. Era filho de mercadores de panos. Sua família, ascendente no que diz respeito à questão econômica e conseqüentemente social devido à irrupção da comuna e queda do feudalismo, pela qual sua família conheceu grande prosperidade. Francisco auxiliava seu pai Bernardone no comércio dos panos, e por isso desenvolveu boa habilidade com relação aos dotes para comercializar.
Quando alcançou a juventude quis tornar-se cavaleiro e por isso armou-se magnificamente, como um grande príncipe, para assim alcançar status social e reconhecimento. Conta a Legenda dos Três companheiros que o animado jovem alistou-se no exército de um tal conde Gentil, ou Gualter de Briene, e partiu para Apúlia. Aqui começa a “saga religiosa” deste homem que durará até o fim de sua vida. Após certa visão, entrega toda sua indumentária a um pobre cavaleiro. Em Espoleto sentiu-se adoentar. No sono escuta alguém lhe perguntar: “Francisco, quem te pode fazer melhor? O senhor ou o servo?” O qual ele respondeu “o Senhor”. “Então, porque deixas o Senhor pelo servo e o príncipe pelo vassalo?” e Francisco prontamente respondeu: “SENHOR QUE QUERES QUE EU FAÇA?
Nesta pergunta está o segredo de toda a vida do Poverelo. Sabe o que acontece quando dirigimos essa pergunta a Deus? Ele responde, como fez com Francisco: “Volta para tua terra e te será dito o que deverá fazer”.
O discernimento da vocação somente pode se dar se ocorrer uma verdadeira conversão de vida. Sempre nos vem a tentação de acrescentar a “conversão” a palavra “interior”. Mas não vamos fazer isso, pois compreendemos que o ser humano é um todo global que envolve a unidade do exterior com o interior. Dizer isso é afirmar que em Francisco encontramos uma mudança de direção na vida global dele (psico-físico-social-religioso e porque não lúdico), na qual podemos sim, afirmar que ocorreu diferenciação dos atos antes praticados, mas a sua disposição interior de generosidade, habilidade mercantil, largueza de espírito, espírito prático, etc, não foram deixadas para trás. Pelo contrário! Foram aperfeiçoadas pelo espírito religioso que agora lhe tomava a existência e convertidas para outro estilo de vida, antes “mundano”, isto é, com objetivo de simples sucesso pessoal, para o dom oblativo de si mesmo para a causa do Evangelho. Passa a viver retirado para discernir com mais afinco a Voz de Deus do que poderia ser sua própria voz ou vozes dos outros, e direcionar sua vida para o caminho da vontade de Deus.
Em Francisco surpreende sua capacidade de, ainda em nossos tempos, despertar a nossa atenção, mesmo depois de oitocentos anos de história e de sua partida para a casa do Pai, num sábado de outubro, dia 03, no ano de 1226. Não fica uma pergunta de fundo? Porque??? Não tenho a pretensão de responder a isso, mas, penso que aqui podemos aplicar o princípio Gamaliel, qual seja, “se o seu intento ou sua obra provém dos homens, destruir-se-á por si mesma; se vem de Deus... (At 5, 38b-39). Claro está que um dia, se porventura os franciscanos não existirem mais, a vida franciscana continuará vigente, pois é movimento evangélico. E os franciscanos só podem existir porque a sua raiz é forte.
Seja um franciscano! Ou secular (leigo sem consagração regular dos votos vivendo na própria família), ou frade (com consagração pelos votos religiosos), ou uma irmã (também consagrada). Ou ainda, existem muitos outros modos como a Juventude Franciscana (Jufra).
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MDT