quinta-feira, 9 de julho de 2009

Pedagogia existencial do Crucificado - a experiência de São Francisco de Assis

O longo caminho da experiência de uma vida se faz no bojo da construção da história e da captação das mesmas experiências-históricas, no confronto e na partilha. Vejamos um homem, Francisco de Assis, no confronto-partilha com a cruz (melhor dizendo, o Crucificado). Encontrou uma nova dimensão para sua vida que se materializou não somente nos seus atos, mas na sua compreensão global de tudo o que existe pois, afinal, ele não se dirigia mais às coisas de modo neutro, mas as denominava irmãs. E mesmo àquele fenômeno que escapava da compreensão humana normal, a morte, era também encarada como irmã.

O horizonte histórico da pessoa se dá na concretude da vivência social dos relacionamentos. Nada no humano escapa do âmbito da capacidade, vontade e necessidade relacional. Por isso, quando afirmamos que quando da morte de nada pode ser levado desta vida, cometemos um erro, pois há uma única coisa que "levamos" conosco: é justamente tudo aquilo que construimos no campo do relacionamento, e todo o amor que distribuimos no mundo. Contudo, na verdade do fato nem mesmo levamos, mas deixamos. Parece-me que foi Madre Teresa de Calcutá que afirmou do momento da morte que a única coisa que seremos cobrados por Deus será o tanto que amamos. Então, isso nos leva à seguinte reflexão: o ser humano inscreve no coração dos outros a marca de sua existência. Mesmo depois que partimos dessa vida, continuamos a existir no coração das pessoas que conviveram conosco: todo ser humano faz história, e faz a história. Estamos na história e existimos concretamente a partir de quando sabemos e sabem de nós, e também sabemos dos outros e deixamos que eles saibam de nós. Pode parecer muito pragmática essa afirmação, mas está contida numa noção de existência onde se leva em consideração a suprema valorização da pessoa humana como ser, acima de tudo, de relação.

Quero inserir Francisco de Assis nesta dinâmica no que diz respeito a sua experiência com o Crucificado. É sabido que na sua época existia uma profunda e difundida espiritualidade da cruz. Nosso querido irmão não escapa a esse "costume". Mas, nele se configura uma outra mens relacional (que não é melhor e nem mais baixa) com o Crucificado e que penetra toda a sua existência a ponto de ampliar seu campo de atuação na vida de outras pessoas. Francisco olha o Crucificado a partir de um lugar situado: Jesus situado e Francisco também situado. Ele chora a partir eda Cruz; ele fala com o Crucificado (São Damião, mesmo que hoje saibamos constituir um recurso literário, continua a expressar algo profundo para nós); ele recomenda muitas vezes a volta ao Crucificado como "paradigma fenomenal"... Não é algo apenas que parte do sentimento interior e pessoal, mas se materializa, se configura, estrutura e constitui sua visão de mundo. Basta analisar suas orações, suas cartas, sua biografia (hagiografia). Para Francisco o Crucificado é o outro concreto de sua vida que o abre para uma experiência de mundo e das pessoas. Existe uma experiência-histórica real que alcança o âmago da realidade de Francisco e "produz" uma perspectiva e uma vivência diferenciada (para usar uma expressão do futebol tão comum hoje em dia para se falar de um bom jogador). Podemos constatar também uma imagem de Deus muito peculiar. É o Todo-Poderoso, mas está partilhando de si na vida do humano. Essa é a realidade da tríplice devoção de Francisco: Cruz, Eucaristia e Presépio. Em todos esses fatores ele divisa o Deus que participa de tudo o que é humano.

É impressionante como se torna plástico em São Francisco a realidade da encaranação. E isso que denominamos de tríplice devoção de Francisco vai nessa mesma direção do entendimento da pobreza de Deus e minoridade da vida vivida na compreensão da fé. A verdade principal é: Deus vem e nós vamos a ele, e nunca foi o contrário. Brilha, assim, para a humanidade uma nova perspectiva. E para isso comemoramos 800 anos de fundação da vida do carisma. Por que Francisco inscreveu no coração da humanidade sua dimensão própria de relacionamento concreto-existencial-histórico que não respeita tempo e espaço, mas que durará até o último humano que respirar na Terra.

Por isso que o franciscano é um apaixonado pela justiça social, pela igualdade, pelo amor aos mais pobres, excluídos, marginalizados, as minorias... , pois não aceita que ninguém deixe de participar dos benefícios da humanidade que Deus oferece abundantemente e gratuitamente. No nível do relacionamento deve imperar a vontade do bem-estar bio-físico-psico-social-espiritual da pessoa na sua integralidade, pois somos todos pertencentes ao grande conjunto da família humana.
MDT

terça-feira, 7 de julho de 2009

INTRODUÇÃO DA CARTA ENCÍCLICA CARITAS IN VERITATE DO SUMO PONTÍFICE BENTO XVI

Posto a seguir apenas a introdução da primeira Encíclica social de Bento XVI, a terceira de seu pontificado. A intenção dessa postagem é apenas ser um convite à leitura desse documento que comemora o aniversário de publicação de outra Enciclíca, a Populorum Progressio. A leitura desses documentos é importante para nos auxiliar em nossa vivência, não só cristã, mas também a vivência social, pois do contrário tudo se torna apenas, como costumeiramente brincamos, papelorum progressio.

1. A caridade na verdade, que Jesus Cristo testemunhou com a sua vida terrena e sobretudo com a sua morte e ressurreição, é a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. O amor — « caritas » — é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz. É uma força que tem a sua origem em Deus, Amor eterno e Verdade absoluta. Cada um encontra o bem próprio, aderindo ao projecto que Deus tem para ele a fim de o realizar plenamente: com efeito, é em tal projecto que encontra a verdade sobre si mesmo e, aderindo a ela, torna-se livre (cf. Jo 8, 22). Por isso, defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e testemunhá-la na vida são formas exigentes e imprescindíveis de caridade. Esta, de facto, « rejubila com a verdade » (1 Cor 13, 6). Todos os homens sentem o impulso interior para amar de maneira autêntica: amor e verdade nunca desaparecem de todo neles, porque são a vocação colocada por Deus no coração e na mente de cada homem. Jesus Cristo purifica e liberta das nossas carências humanas a busca do amor e da verdade e desvenda-nos, em plenitude, a iniciativa de amor e o projecto de vida verdadeira que Deus preparou para nós. Em Cristo, a caridade na verdade torna-se o Rosto da sua Pessoa, uma vocação a nós dirigida para amarmos os nossos irmãos na verdade do seu projecto. De facto, Ele mesmo é a Verdade (cf. Jo 14, 6).
2. A caridade é a via mestra da doutrina social da Igreja. As diversas responsabilidades e compromissos por ela delineados derivam da caridade, que é — como ensinou Jesus — a síntese de toda a Lei (cf. Mt 22, 36-40). A caridade dá verdadeira substância à relação pessoal com Deus e com o próximo; é o princípio não só das micro-relações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das macro-relações como relacionamentos sociais, económicos, políticos. Para a Igreja — instruída pelo Evangelho —, a caridade é tudo porque, como ensina S. João (cf. 1 Jo 4, 8.16) e como recordei na minha primeira carta encíclica, « Deus é caridade » (Deus caritas est): da caridade de Deus tudo provém, por ela tudo toma forma, para ela tudo tende. A caridade é o dom maior que Deus concedeu aos homens; é sua promessa e nossa esperança.
Estou ciente dos desvios e esvaziamento de sentido que a caridade não cessa de enfrentar com o risco, daí resultante, de ser mal entendida, de excluí-la da vida ética e, em todo o caso, de impedir a sua correcta valorização. Nos âmbitos social, jurídico, cultural, político e económico, ou seja, nos contextos mais expostos a tal perigo, não é difícil ouvir declarar a sua irrelevância para interpretar e orientar as responsabilidades morais. Daqui a necessidade de conjugar a caridade com a verdade, não só na direcção assinalada por S. Paulo da « veritas in caritate » (Ef 4, 15), mas também na direcção inversa e complementar da « caritas in veritate ». A verdade há-de ser procurada, encontrada e expressa na « economia » da caridade, mas esta por sua vez há-de ser compreendida, avaliada e praticada sob a luz da verdade. Deste modo teremos não apenas prestado um serviço à caridade, iluminada pela verdade, mas também contribuído para acreditar a verdade, mostrando o seu poder de autenticação e persuasão na vida social concreta. Facto este que se deve ter bem em conta hoje, num contexto social e cultural que relativiza a verdade, aparecendo muitas vezes negligente senão mesmo refractário à mesma.
3. Pela sua estreita ligação com a verdade, a caridade pode ser reconhecida como expressão autêntica de humanidade e como elemento de importância fundamental nas relações humanas, nomeadamente de natureza pública. Só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida. A verdade é luz que dá sentido e valor à caridade. Esta luz é simultaneamente a luz da razão e a da fé, através das quais a inteligência chega à verdade natural e sobrenatural da caridade: identifica o seu significado de doação, acolhimento e comunhão. Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente. É o risco fatal do amor numa cultura sem verdade; acaba prisioneiro das emoções e opiniões contingentes dos indivíduos, uma palavra abusada e adulterada chegando a significar o oposto do que é realmente. A verdade liberta a caridade dos estrangulamentos do emotivismo, que a despoja de conteúdos relacionais e sociais, e do fideísmo, que a priva de amplitude humana e universal. Na verdade, a caridade reflecte a dimensão simultaneamente pessoal e pública da fé no Deus bíblico, que é conjuntamente «Agápe » e « Lógos »: Caridade e Verdade, Amor e Palavra.
4. Porque repleta de verdade, a caridade pode ser compreendida pelo homem na sua riqueza de valores, partilhada e comunicada. Com efeito, a verdade é « lógos » que cria « diá-logos » e, consequentemente, comunicação e comunhão. A verdade, fazendo sair os homens das opiniões e sensações subjectivas, permite-lhes ultrapassar determinações culturais e históricas para se encontrarem na avaliação do valor e substância das coisas. A verdade abre e une as inteligências no lógos do amor: tal é o anúncio e o testemunho cristão da caridade. No actual contexto social e cultural, em que aparece generalizada a tendência de relativizar a verdade, viver a caridade na verdade leva a compreender que a adesão aos valores do cristianismo é um elemento útil e mesmo indispensável para a construção duma boa sociedade e dum verdadeiro desenvolvimento humano integral. Um cristianismo de caridade sem verdade pode ser facilmente confundido com uma reserva de bons sentimentos, úteis para a convivência social mas marginais. Deste modo, deixaria de haver verdadeira e propriamente lugar para Deus no mundo. Sem a verdade, a caridade acaba confinada num âmbito restrito e carecido de relações; fica excluída dos projectos e processos de construção dum desenvolvimento humano de alcance universal, no diálogo entre o saber e a realização prática.
5. A caridade é amor recebido e dado; é « graça » (cháris). A sua nascente é o amor fontal do Pai pelo Filho no Espírito Santo. É amor que, pelo Filho, desce sobre nós. É amor criador, pelo qual existimos; amor redentor, pelo qual somos recriados. Amor revelado e vivido por Cristo (cf. Jo 13, 1), é « derramado em nossos corações pelo Espírito Santo » (Rm 5, 5). Destinatários do amor de Deus, os homens são constituídos sujeitos de caridade, chamados a fazerem-se eles mesmos instrumentos da graça, para difundir a caridade de Deus e tecer redes de caridade.
A esta dinâmica de caridade recebida e dada, propõe-se dar resposta a doutrina social da Igreja.Tal doutrina é « caritas in veritate in re sociali », ou seja, proclamação da verdade do amor de Cristo na sociedade; é serviço da caridade, mas na verdade. Esta preserva e exprime a força libertadora da caridade nas vicissitudes sempre novas da história. É ao mesmo tempo verdade da fé e da razão, na distinção e, conjuntamente, sinergia destes dois âmbitos cognitivos. O desenvolvimento, o bem-estar social, uma solução adequada dos graves problemas sócio-económicos que afligem a humanidade precisam desta verdade. Mais ainda, necessitam que tal verdade seja amada e testemunhada. Sem verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social, e a actividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade, sobretudo numa sociedade em vias de globalização que atravessa momentos difíceis como os actuais.
6. « Caritas in veritate » é um princípio à volta do qual gira a doutrina social da Igreja, princípio que ganha forma operativa em critérios orientadores da acção moral. Destes, desejo lembrar dois em particular, requeridos especialmente pelo compromisso em prol do desenvolvimento numa sociedade em vias de globalização: a justiça e o bem comum.
Em primeiro lugar, a justiça. Ubi societas, ibi ius: cada sociedade elabora um sistema próprio de justiça. A caridade supera a justiça, porque amar é dar, oferecer ao outro do que é « meu »; mas nunca existe sem a justiça, que induz a dar ao outro o que é « dele », o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir. Não posso « dar » ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça. Quem ama os outros com caridade é, antes de mais nada, justo para com eles. A justiça não só não é alheia à caridade, não só não é um caminho alternativo ou paralelo à caridade, mas é « inseparável da caridade », é-lhe intrínseca. A justiça é o primeiro caminho da caridade ou, como chegou a dizer Paulo VI, « a medida mínima » dela, parte integrante daquele amor « por acções e em verdade » (1 Jo 3, 18) a que nos exorta o apóstolo João. Por um lado, a caridade exige a justiça: o reconhecimento e o respeito dos legítimos direitos dos indivíduos e dos povos. Aquela empenha-se na construção da « cidade do homem » segundo o direito e a justiça. Por outro, a caridade supera a justiça e completa-a com a lógica do dom e do perdão. A « cidade do homem » não se move apenas por relações feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão. A caridade manifesta sempre, mesmo nas relações humanas, o amor de Deus; dá valor teologal e salvífico a todo o empenho de justiça no mundo.
7. Depois, é preciso ter em grande consideração o bem comum. Amar alguém é querer o seu bem e trabalhar eficazmente pelo mesmo. Ao lado do bem individual, existe um bem ligado à vida social das pessoas: o bem comum. É o bem daquele « nós-todos », formado por indivíduos, famílias e grupos intermédios que se unem em comunidade social. Não é um bem procurado por si mesmo, mas para as pessoas que fazem parte da comunidade social e que, só nela, podem realmente e com maior eficácia obter o próprio bem. Querer o bem comum e trabalhar por ele é exigência de justiça e de caridade. Comprometer-se pelo bem comum é, por um lado, cuidar e, por outro, valer-se daquele conjunto de instituições que estruturam jurídica, civil, política e culturalmente a vida social, que deste modo toma a forma de pólis, cidade. Ama-se tanto mais eficazmente o próximo, quanto mais se trabalha em prol de um bem comum que dê resposta também às suas necessidade reais. Todo o cristão é chamado a esta caridade, conforme a sua vocação e segundo as possibilidades que tem de incidência napólis. Este é o caminho institucional — podemos mesmo dizer político — da caridade, não menos qualificado e incisivo do que o é a caridade que vai directamente ao encontro do próximo, fora das mediações institucionais da pólis. Quando o empenho pelo bem comum é animado pela caridade, tem uma valência superior à do empenho simplesmente secular e político. Aquele, como todo o empenho pela justiça, inscreve-se no testemunho da caridade divina que, agindo no tempo, prepara o eterno. A acção do homem sobre a terra, quando é inspirada e sustentada pela caridade, contribui para a edificação daquela cidade universal de Deus que é a meta para onde caminha a história da família humana. Numa sociedade em vias de globalização, o bem comum e o empenho em seu favor não podem deixar de assumir as dimensões da família humana inteira, ou seja, da comunidade dos povos e das nações, para dar forma de unidade e paz à cidade do homem e torná-la em certa medida antecipação que prefigura a cidade de Deus sem barreiras.
8. Ao publicar a encíclica Populorum progressio em 1967, o meu venerado predecessor Paulo VI iluminou o grande tema do desenvolvimento dos povos com o esplendor da verdade e com a luz suave da caridade de Cristo. Afirmou que o anúncio de Cristo é o primeiro e principal factor de desenvolvimento e deixou-nos a recomendação de caminhar pela estrada do desenvolvimento com todo o nosso coração e com toda a nossa inteligência, ou seja, com o ardor da caridade e a sapiência da verdade. É a verdade originária do amor de Deus — graça a nós concedida — que abre ao dom a nossa vida e torna possível esperar num « desenvolvimento do homem todo e de todos os homens », numa passagem « de condições menos humanas a condições mais humanas », que se obtém vencendo as dificuldades que inevitavelmente se encontram ao longo do caminho.
Passados mais de quarenta anos da publicação da referida encíclica, pretendo prestar homenagem e honrar a memória do grande Pontífice Paulo VI, retomando os seus ensinamentos sobre o desenvolvimento humano integral e colocando-me na senda pelos mesmos traçada para os actualizar nos dias que correm. Este processo de actualização teve início com a encíclica Sollicitudo rei socialis do Servo de Deus João Paulo II, que desse modo quis comemorar a Populorum progressio no vigésimo aniversário da sua publicação. Até então, semelhante comemoração tinha-se reservado apenas para a Rerum novarum. Passados outros vinte anos, exprimo a minha convicção de que a Populorum progressio merece ser considerada como « a Rerum novarum da época contemporânea », que ilumina o caminho da humanidade em vias de unificação.
9. O amor na verdade — caritas in veritate — é um grande desafio para a Igreja num mundo em crescente e incisiva globalização. O risco do nosso tempo é que, à real interdependência dos homens e dos povos, não corresponda a interacção ética das consciências e das inteligências, da qual possa resultar um desenvolvimento verdadeiramente humano. Só através da caridade, iluminada pela luz da razão e da fé, é possível alcançar objectivos de desenvolvimento dotados de uma valência mais humana e humanizadora. A partilha dos bens e recursos, da qual deriva o autêntico desenvolvimento, não é assegurada pelo simples progresso técnico e por meras relações de conveniência, mas pelo potencial de amor que vence o mal com o bem (cf. Rm 12, 21) e abre à reciprocidade das consciências e das liberdades.
A Igreja não tem soluções técnicas para oferecer e não pretende « de modo algum imiscuir-se na política dos Estados »; mas tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo e contingência, a favor de uma sociedade à medida do homem, da sua dignidade, da sua vocação. Sem verdade, cai-se numa visão empirista e céptica da vida, incapaz de se elevar acima da acção porque não está interessada em identificar os valores — às vezes nem sequer os significados — pelos quais julgá-la e orientá-la. A fidelidade ao homem exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade (cf. Jo 8, 32) e da possibilidade dum desenvolvimento humano integral. É por isso que a Igreja a procura, anuncia incansavelmente e reconhece em todo o lado onde a mesma se apresente. Para a Igreja, esta missão ao serviço da verdade é irrenunciável. A sua doutrina social é um momento singular deste anúncio: é serviço à verdade que liberta. Aberta à verdade, qualquer que seja o saber donde provenha, a doutrina social da Igreja acolhe-a, compõe numa unidade os fragmentos em que frequentemente a encontra, e serve-lhe de medianeira na vida sempre nova da sociedade dos homens e dos povos.
_________________

Fonte: Agência Zenit: http://www.zenit.org/article-22072?l=portuguese

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A itinerância franciscana

A existência franciscana, na medida do crescimento-amadurecimento da vida, se torna lugar e semente da criação e da concretização da vida cristã. O querido irmão Francisco de Assis não soube desejar e ter outra vida depois do contato pessoal com o Deus que descia ao homem para com ele viver todas as situações mais corriqueiras na qual o ser humano está colocado. Era trabalho penoso para ele manter-se na fidelidade da busca, porém, trabalho necessário para saber-se totalmente configurado ao Cristo que tanto o tocava o coração.

Não posso dizer com segurança, mas vejo que a religião cristã é a única que apresenta uma noção tão humana de Deus e tão próximo de nossa vida. E me admira ainda mais como o jovem Francisco se abre tão generosamente a esta oferta de Deus que acontece a todos os homens. Será que Francisco era possuidor de inteligência tão elevada, que lhe possibilitou tamanha percepção de Deus? Respondo, sem querer ser presunçoso, que penso que não! Francisco com certeza era possuidor de inteligência perspicaz, mas nada tão fora do normal. Essa revelação de Deus não depende em nada de grau Q.I., mas de abertura sem reservas e sem desconfianças ou medo. Se estes sentimentos existirem, porém, nada pode impedir na busca. Basta colocar-se a caminho.

Francisco, mesmo depois dos sinais, ainda se arrisca na aventura do tudo deixar e se lançar na estrada. Ele sabia que tudo dependia de sua saida de casa, pois lá não seria possível continuar com o seu desejo de perseguir e, seguir ao Cristo que o tocara e o fizera mudar de vida. E assim, ele caminha pelas ruas, vestido de trapos, sem nada possuir para viver na liberdade e gratuidade do ser humano e seguidor do homem da cruz.

A itinerância passa a ser marca indelével do novo estilo de vida que nasce, na contrapartida do estilo de vida monástico estável localmente. Francisco não estrutura esta nova Ordem porque ele concebia para si mesmo que a vida monástica não podia mais ser um estilo único de vida religiosa e assim ele precisava fundar outro modo e outras estruturas. Pelo contrário, nas Fontes Franciscanas não aparecem referências que nos possilitem tal argumentação. O que acontecia com ele era totalmente inusitado e sem intenções pré-concebidas. É curioso que em Francisco não tenha havido tal preocupação, mas não é de forma alguma uma atrocidade, pois era a mão de Deus desejando a concebendo tal estilo de vida.

A itinerância é nossa marca registrada na vida franciscana. Certa vez se dirigiram a Francisco fazendo referência ao "sua" cela (quarto). Esse pronome possessivo caiu como uma pedra que o esmagava, pois para ele não era concebível ser possuidor de qualquer coisa que existisse. No mesmo instante ele se retirou daquele lugar. A itinerância franciscana significa acima de tudo disposição total de fazer de si mesmo oferta e caminho na condição de não possuidor de nada que seja. É aquele trabalho no pessoal que o NPSF recomendou aos seus frades do "vencer-se a si mesmo".

Imaginemos uma situação e vamos utilizá-la como exemplo, sem pensar em ninguém de modo concreto, para que não corramos o risco de realizar pré-julgamentos anti-evangélicos. Um frade muito apegado a certo lugar, pois ali conseguiu conquistar muitas amizades, ganhou o afeto de todo aquele povo. Deixar este local seria um sofrimento sem tamanho. Esse mesmo frade precisará por ordem superior deixar tal lugar. Todos nós, em algum momento da vida já passamos por tal situação, não semelhante na configuração, mas no sentimento que aflora neste indivíduo. É um sofrimento lascado! Mas terá que deixar, pois o que está em jogo é a própria vocação franciscana. O que isso quer dizer? O Apego nos afasta da missão primordial de nossa vida, pois passamos a desejar apenas a salvação de nosso ego. O perigo da apatia vocacional virá sempre que nos furtarmos da missão primordial a qual fomos convocados pela Trindade a realizar. A nossa vocação está em vista do que, afinal?
MDT

sábado, 4 de julho de 2009

Família, formadora da Igreja

"Sua mãe e seus irmãos foram, se detiveram fora e enviaram um recado chamando-o. As pessoas estavam sentadas em torno dele e lhe dizem: 'Vê, tua mãe e teus irmãos estão fora e te procuram.' Ele lhes respondeu: 'Quem é minha mãe e meus irmãos?' E olhando os que estavam sentados em círculo ao redor dele, diz: 'Vede minha mãe e meus irmãos. Pois, quem cumpre a vontade de meu Pai do céu, esse é meu irmão, irmã e mãe. (Mc 3, 31-35)

A família, no contexto da vida humana é sempre formadora, em todos os âmbitos. Na vida Igreja como um todo ela também não deixa de possuir esta missão. Mas o termo formadora podemos conceber a partir de dois modos: como constituidora ou como educadora. Uma compreensão não exclui de forma alguma a outra, mas fazemos este tipo de diferenciação por motivos pedagógicos. Vejamos o porquê.
A família é célula constituidora não somente da Igreja, mas da sociedade como um todo, com todas os seus deveres e direitos inerentes. Constitui para formar estruturalmente e organizar todo o conjunto social.
A família é também possuidora da missão de educar, formar, transmitir o plano formal das tradições de valores básicos de vida pela capacidade e função primordial de relacionamento.
Mas este tema ao qual assumimos como trabalho desenvolver se desdobra na verdade, sob dois pontos importantes a serem esclarecidos: 1) a Família e 2) a Igreja. Partiremos do aspecto mais amplo e geral, a Igreja. E assim, precisamos explanar sobre a compreensão fundante. A Igreja, numa conceituação a partir dela mesma é sacramento universal da salvação e comunidade para o Reino. O Filho de Deus assumiu a condição humana para resgatar a humanidade. E o Cristo, através da estrutura social da Igreja Católica é o órgão de salvação para o mundo.
Para que possamos nos situar mais claramente e sairmos de nossas compreensões universalistas demais, a Igreja não constitui simplesmente uma organização universal concernente somente ao Papa e seus cardeais, mas a Igreja deve ser compreendida e vivenciada a partir da realidade da comunidade, ou seja, a Igreja é uma congregação local. A Igreja não é católica se não for local, particular; mas a Igreja particular não é a Igreja a menos que seja católica.
Pela celebração da palavra e da ceia eucarística Cristo está presente na comunidade cúltica de modo real, pois está assim presente a modo de membro principal do corpo, a cabeça, aquele que é o chefe constituidor junto com seu povo (Mc 3, 31-35).
Aqui podemos explanar sobre a família. Mas antes façamos algumas antecipações. A família na verdade é uma pequena comunidade onde se difunde o relacionamento entre seus membros. A família deve ser pensada no conjunto da vida. Ela se liga à sociedade e se plasma a partir dela. No seu estruturar-se básico a família se organiza a partir da aliança, consangüinidade e da descendência. A aliança entre o homem e a mulher não é um simples acordo, contrato estabelecido (como se diz comumente), nem promessa somente, entretanto é profissão, pois o amor não é sentimento que se sente sem querer, mas é decisão existencial acima de tudo.
No seu bojo, a família possui uma constituição humanizadora básica de dar sentido e direção às coisas. Como conjunto de pessoas em relações de reprodução humana, ligadas por laços de aliança, consangüinidade e descendência a família desempenha sua atuação na produção também nas relações, sentidos e significados. O criar significação desempenha no conjunto da vivência concreta uma natureza formadora do humano que se efetua na relação. A família desempenha ainda funções básicas no nível biológico, afetivo, educador, político e religioso. Não aprofundaremos nenhum destes agora, mas isso é importante para ampliarmos nossa visão.
A autoridade, estabilidade e a comunidade de vida no interior da família constituem a base para a liberdade, segurança e fraternidade dentro da sociedade. A vida da família é treinamento para a vida social. Na família vemos a obra criadora de Deus pela procriação. As que vivem de acordo com a fé constituem uma comunidade de esperança e caridade e são uma representação e realização específica da comunidade eclesial. Por isso podemos denomina-la de Igreja doméstica, pois a família é a primeira escola de vida cristã. Neste ínterim, a tradição no seio familiar é o organismo vivo de transmissão de valores que depende dos mais velhos para difundirem aos mais novos os valores daquela família específica.
Desse modo, o matrimônio foi instituído como sacramento porque entendido como sinal da aliança eterna do relacionamento vital de Deus com os homens, desde o ponto de vista bíblico, onde vemos a constituição básica do verdadeiro relacionamento de fidelidade e de amor profundo onde não vemos nada mais do que a essência da vida divina na doação sem preocupações com reservas a si mesmo. O vigor da vivência de Deus é nesse sentido união, doação e amor. Na família devem reinar todos estes valores que são centrais, caso contrário encontraremos toda esta gama de problemas na sociedade, esta que é espelho de como está a família na sua constituição interna hoje. A família hoje, para ser formadora de Igreja precisa ser unida em pontos centrais de sua vivência, tais como oração comum, atividades em comum, transmissão de valores morais e de fé, as famílias devem também ser detentoras de uma missão comum no seio da Igreja, missão que concerne a todos os cristãos batizados. No seio da sociedade e da Igreja isso é de mdo mais do que natural uma vitalidade de que nunca poderemos abrir mão. É no seio da casa que se dá o início e a realidade da Igreja.
FRFC
Referências: FUELLENBACH, John. Igreja, comunidade para o Reino. São Paulo: Paulinas. 2006;
ANJOS, Márcio Fabri dos. Teologia da Família e do Matrimônio. Anotações para uso dos alunos com complementação em sala de aula. São Paulo: Itesp/Assunção. 2009.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Novo (antigo) sistema governamental: o Solidarismo.


“Uma coisa sabemos: nosso Deus é o mesmo Deus de vocês. Esta terra é preciosa para ele. Nem o homem branco pode ficar de fora de um destino comum.” (Discurso do Chefe Seattle)

Estamos todos fadados a um destino comum. Essa realidade da concretude existencial da humanidade é o fator primordial para salvar todo o gênero humano de um colapso. As gerações vindouras serão (já o são) nossos credores se não tomarmos medidas drásticas para a solução de todos – todos – os problemas ambientais nos quais entramos.
Mas, inicialmente devemos trocar toda nossa orientação compreensiva à respeito de vários fatores: sobre a terra; sobre a humanidade, sobre a pessoa humana; sobre o progresso; sobre a comunidade; sobre Deus; sobre o consumo; sobre os relacionamentos; sobre a vida; enfim, muito mais do que os citados, sobre todo o conjunto da vida humana. Fritjof Capra dissertou sobre a Teia da Vida. Este insigne físico-pensador tocou num ponto-chave para começarmos a revolucionar e a transformar nosso planeta e “reconstruí-lo” novamente. No ambiente em que vivemos tudo está interligado numa mútua interdependência, como numa teia. Se um dos elos se desfaz deixa outro lado pendente. Será que não conseguimos nos despertar para esse conjunto de nossa vida?
Dentre os diversos fatores citados, acima se faz mister destacar dois, no meu ponto de vista centrais, aos quais pedem nova postura ante ao impulso devastador do a) consumismo que já não constitui, como anos atrás, princípio a ser encarado apenas no âmbito moral, mas acima de tudo tornou-se princípio de cunho vital. Isso quer dizer que para adequarmos nosso comportamento teremos que assumir uma postura de consumo mais voltado para a sobriedade e o controle a partir de perspectivas acima de tudo solidárias. Sobre o controle, antes de tudo deve haver o controle sobre os desejos (e aqui poderíamos abrir outro leque de reflexão no que diz respeito aos desejos produzidos por meios de comunicação marketistas), pois muitas das vezes os impulsos são estalos momentâneos provocados seguidos de arrependimentos. Não só os desejos, mas a capacidade crítica da população deve ser ampliada (outro campo de análise poderia ser aqui aberto...)
b) Outro fator que deverá ser encarado de frente nos próximos tempos será o conceito de progresso. Há pouco mais de cem anos atrás começamos a devastação do nosso planeta. Nosso ecossistema está clamando por cessar tamanha ação destrutiva.

Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada folha brilhante do pinheiro, cada punhado de areia das praias, cada pedaço da penumbra da floresta densa, cada clareira ou inseto a zumbir é sagrado na memória e na experiência de meu povo.” (Discurso do Chefe Seattle)

E não pode deixar de ser para nós “homens brancos”. Repito que é vital para novos modos, nova compreensão. Por exemplo: pensemos se cada família da China ou da Índia, uma das duas, instituísse como direito inalienável que cada família deveria ser possuidora de uma geladeira. Você sabe qual seria a conseqüência não só local, mas global? Portanto, urge nos dirigirmos para um gênero de vida onde devemos repensar nossa existência enquanto ainda podemos nos dar a este luxo, caso contrário seremos forçados a isto.
Para tal, outra medida não temos se não for a do desbanque dos grandes produtores e donos do capital, principais, aliás, únicos responsáveis por tal situação. E o único caminho a ser empreendido será o da solidariedade produtiva, relacional, ambiental... no lugar de um capitalismo destruidor
FRFC

quinta-feira, 2 de julho de 2009

"Quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz"

Por Carlos Alberto Libânio (Frei Beto)

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China.Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão.Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam.
Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam.
Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas, como a companhia aérea oferecia outro café, todos comiam vorazmente (robôs, escravos do modernismo, ignorantes que não estão vivendo, uma triste situação humana!!!
Aquilo me fez refletir: Qual dos dois modelos produz felicidade?
Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: ‘Não foi à aula?’ Ela respondeu: ‘Não, tenho aula à tarde’. Comemorei: ‘Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde’. ‘Não’, retrucou ela, ‘tenho tanta coisa de manhã… ‘ ‘Que tanta coisa?’, perguntei. ‘Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina’, e começou a elencar seu programa de garota robotizada.
Fiquei pensando: ‘Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação!”
Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a inteligência emocional.
Não adianta ser um superexecutivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!
Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem 60 academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: ‘ Como estava o defunto?’ ‘Olha, uma maravilha, não tinh uma celulite!’ Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?
Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega Aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais…
A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções - é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é ‘entretenimento’; domingo, então,é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: ‘Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!’ O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.
Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma sugestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, falta de estresse.
Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas…
Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno… Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald’s…
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: ‘Estou apenas fazendo um passeio socrático’. Diante dos olhares espantados, explico: ‘Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: ‘Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz’.

Fonte: http://desempregozero.org/2008/07/24/frei-beto-otima-reflexao/

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Consciência histórica

"Hoje, para nós, essa mesma preocupação humana de fidelidade, de compromisso com o passado e com a vida, essa mesma descoberta progressiva da missão histórica, essa mesma vontade de construir um mundo mais feliz e mais humano, geralmente nascem não da análise da história bíblica, mas da análise da nossa história que carregamos conosco na nossa memória; nascem da nossa vida e do nosso presente."*

É de se admirar sempre quando da concreticidade da vida humana. Uma referência que nunca deveria ser deixada de lado é a memória histórica de um povo ou de uma pessoa. A isso costumamos denominar de conciência histórica. O engajamento pessoal na história torna mais real a vida na terra, pois concretiza toda uma construção não só mental de uma vivência, mas acima de tudo, maximiza nossa experiência existencial. Ou seja, a não preocupação com a concretude histórica causa na vivência pessoal uma apatia transformada ao mesmo tempo numa experiência discriminatória das atitudes sociais. Explico-me melhor: os atores sociais destes nossos tempos não cultivam ideais históricos, i. é., nas ações sociais não há preocupação com construção de atos duradouros e de cultivo das tradições. Tradições, aqui, não entendidas como tradicionalismo, mas como continuidades históricas capazes de transformações. Todos somos detentores de uma missão histórica.

A fidelidade, seja no nível moral ou de modo mais abrangente, sempre evoca algum vínculo acima de tudo de progressividade. A consciência de um engajamento histórico é sempre efeitual. Ninguém que viveu, vive ou viverá é desprovido desta noção peculiar somente ao ser humano. Todas as situações são evocadoras deste ponto de vista da vida humana. A citação colocada acima evoca esta vertente de pensamento que defende a construção da história bíblica a partir da concretude histórica de um povo, pessoa, comunidade. Nada do que é humano pode ser estranho a experiência religiosa que fazemos na vida.

Tudo é fruto do acaso! Será que podemos fazer este tipo de afirmação? Por que não? Paremos e pensemos um pouco: nossa história não está escrita num livro antes mesmo de nascermos. Penso que isso é uma noção mais do que básica, é vital. Ainda: dizemos que nosso Deus nos oferece a liberdade. Isso é na vedade mais do que tranquilo. Então nada do que acontece acontece por um desígnio pré-estabelecido, mas acontece por acontecer. Aqui eu quero retomar o pensamento exposto acima. A consciência histórica possiblita a todos nós desejar a construção de uma realidade que seja de alguma forma favorável a total disponibilidade vivencial. Tudo na história dos homens depende de nossa ação, que não pode deixar de ser histórica e nunca deixará de ser porque estamos engajados nele e fadados às suas peripécias, aliás, nossa peripécias.

Por isso falamos tanto da volta às fontes. Voltar às fontes é justamente esse modo de engajar-se na história humana e agradecê-la, pois de nada serviria nossa volta às fontes se não fosse primeiramente para agradecer. Depois sim, escarafunchar nas fontes sinalizadores para nossa vivência atual. Na VR como um todo difunde-se há anos essa nessa necessidade da volta às fontes, não só dos fundadores das congregações e ordens religiosas, mas às fontes de nossa fé cristã.
FRFC
*MESTERS, Carlos. Por trás das palavras. Petrópoles: Vozes. 1974, p. 129