sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Deus e a cultura moderna - parte 1

Desejo aqui explanar o relacionamento que o homem moderno procura estabelecer com Deus e a configuração da mens atual: uma sociedade toda globalizada e interligada mundialmente.

O estudo da configuração religiosa que a cultura moderna estabelece é uma tentativa de conhecer o que o ser humano atual é capaz de fazer ao construir vínculo com a divindade. Aqui não se exclui de modo algum a experiência religiosa pessoal, pois essa é uma construção que pode ser feita independente, mas que na maioria das vezes possui uma dependência cultural das estruturas sociais. Afirma Libânio: “A modernidade é mais que um simples momento da história. É um horizonte em que vivemos e dentro do qual praticamos nossa fé.”[1]
A sociedade atual elabora um discurso em que prevalece a soberania da razão, do verificável, daquilo que surge efeito, produz resultados. Até mesmo a busca da religiosidade vai nessa direção. Somente vale a pena participar de uma religião na qual eu consigo algum benefício pessoal, seja cura, seja enriquecimento material, dentre outros benefícios. Tudo tem que ser “quantificável” de algum modo. Libânio reafirma o império da razão: “A modernidade é, antes de tudo, o triunfo da razão.”[2] Da razão chamada prática que -- “institui-se em instância crítica das tradições e autoridade, ao fundar-se sobretudo na verdade da experiência científica, que se constitui através da observação do real”[3] – pode-se constatar uma “criminalização” da experiência religiosa da pessoa que se põe na busca do conhecimento de Deus.
Aqui faz-se mister estudar a distinção entre a fé no “Deus concreto” da revelação e essa compreensão moderna da razão prático-científica da constatação e experimentação. Para o pensamento moderno a revelação pertence à infância da cultura. Sua posição é assumida pelo reino da razão positiva.[4] Toda a concepção de revelação cunhada pela fé da experiência no Deus do povo de Israel perde sentido pois a Deus não se pode tocar e para superá-lo nós podemos explicar a origem das coisas pela evolução da vida dos homens, da história. Por ora, compete-nos conhecer essa razão que cobra experiência, constatação, porém, descarta outro modo de conhecimento e de experenciação da realidade.
MDT
_______________________
[1] LIBANIO, João Batista. Teologia da revelação a partir da modernidade. São Paulo: Loyola, 1992. p. 113
[2] id. ibid., 1992, p. 117
[3] id. Ibid., 1992, p. 117
[4] cf. LIBANIO, op. Cit., p. 117

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

PANDEMIA DE LUCRO

Uma reflexão que venho fazendo algum tempo, desde que apareceu esse problema da GRIPE A H1N1, em plena crise mundial, quando nossas esperanças da queda do sistema atual do capitalismo iria acontecer, emerge nesse frenesi quanto a uma gripe controlável. Não estou querendo dizer que não se deve cuidar para sua ampliação e de que as medidas que foram tomadas tenham sido erradas, mas a reflexão do porquê não pode ser deixada de lado. Leonardo Boff torna isso palavras de mais peso para nós. Acompanhe:

Por Leonardo Boff

Que interesses econômicos se movem por detrás da gripe porcina?... No mundo, a cada ano morrem milhões de pessoas vítimas da Malária que se podia prevenir com um simples mosquiteiro. Os noticiários, disto nada falam! No mundo, por ano morrem 2 milhões de crianças com diarréia que se poderia evitar com um simples soro que custa 25 centavos. Os noticiários disto nada falam! Sarampo, pneumonia e enfermidades evitáveis com vacinas baratas, provocam a morte de 10 milhões de pessoas a cada ano. Os noticiários disto nada falam! Mas há cerca de 10 anos, quando apareceu a famosa gripe das aves…os noticiários mundiais inundaram-se de notícias… Uma epidemia, a mais perigosa de todas…Uma Pandemia! Só se falava da terrífica enfermidade das aves. Não obstante, a gripe das aves apenas causou a morte de 250 pessoas, em 10 anos…25 mortos por ano. A gripe comum, mata por ano meio milhão de pessoas no mundo. Meio milhão contra 25. Um momento, um momento. Então, porque se armou tanto escândalo com a gripe das aves? Porque atrás desses frangos havia um “galo”, um galo de crista grande. A farmacêutica transnacional Roche com o seu famoso Tamiflú vendeu milhões de doses aos países asiáticos. Ainda que o Tamiflú seja de duvidosa eficácia, o governo britânico comprou 14 milhões de doses para prevenir a sua população. Com a gripe das aves, a Roche e a Relenza, as duas maiores empresas farmacêuticas que vendem os antivirais, obtiveram milhões de dólares de lucro. - Antes com os frangos e agora com os porcos... - Sim, agora começou a psicose da gripe porcina. E todos os noticiários do mundo só falam disso… - Já não se fala da crise econômica nem dos torturados em Guantánamo …Só a gripe porcina, a gripe dos porcos… - E eu me pergunto: se por trás dos frangos havia um “galo”, por trás dos porcos… não haverá um “grande porco”? A empresa norte-americana Gilead Sciences tem a patente do Tamiflú. O principal acionista desta empresa é nada menos que um personagem sinistro, Donald Rumsfeld, secretario da defesa de George Bush, artífice da guerra contra o Iraque… Os acionista das farmacêuticas Roche e Relenza estão esfregando as mãos, estão felizes pelas suas vendas novamente milionárias com o duvidoso Tamiflú. A verdadeira pandemia é de lucro, os enormes lucros destes mercenários da saúde. Não nego as necessárias medidas de precaução que estão sendo tomadas pelos países. Mas, se a gripe porcina é uma pandemia tão terrível como anunciam os meios de comunicação...Se a Organização Mundial de Saúde se preocupa tanto com esta enfermidade, porque não a declara como um problema de saúde pública mundial e autoriza o fabrico de medicamentos genéricos para combatê-la? Prescindir das patentes da Roche e Relenza e distribuir medicamentos genéricos a todos os países, especialmente aos pobres, essa seria a melhor solução. Mais ética, sensata, responsável e humanamente justa, ao menos...

PASSEM ESTA MENSAGEM COMO SE TRATASSE DE UMA VACINA, PARA QUE TODOS REFLITAM SOBRE UM ÂNGULO DIFUSO DA REALIDADE DESTA “PANDEMIA”.

sábado, 15 de agosto de 2009

A modo de continuação

Seguindo as reflexões anteriores (dias 28/07/2009 e 03/08/2009) procuramos neste breve trecho abordar como fica a questão da fé no mundo factual.
************************
Por frei Arnaldo Aragão ofm conv
***************************
A princípio é bom ter presente que ninguém profere palavras sobre algo desconhecido. Em matéria de fé não podemos pensar ou proferi palavras fora da própria fé; pois quando falamos sobre fé logo nos vem à mente palavras tão conhecidas nossas, a saber, Deus, Jesus, Espírito Santo, céu, transcendência, ressurreição, vida eterna... estamos envoltos nestas palavras, porém podemos tê-las de dois modos:
************************
A modo de ciência e a modo de encontro/chamado

Falar da fé a modo de ciência é ter diante de si um objeto-objetivado do qual proferimos elucubrações sobre sem necessariamente nos comprometer com este determinado objeto – existente aí fora de nós; falar da fé a modo de encontro/chamado não pressupõe uma relação divida entre sujeito-objeto ou causa-efeito ou ainda eu-mundo, pelo contrário, eu e o mundo circundante contingencial somos um, sem confusão e sem divisão, porque se estamos falando de encontro que temos claro quem é o transmissor e o receptor.
Vejamos dois exemplos bíblicos que nos ajudam a visualizar isto que proferimos: Respondeu Faraó: “Quem é Iahweh para que eu ouça a sua voz e deixe Israel partir? Não conheço Iahweh, e tampouco deixarei Israel partir”. Eles disseram: “O Deus dos hebreus veio ao nosso encontro”. (Ex 5, 2-3a). Moisés e Aarão sabem claramente qual a sua missão e quem os incumbiu dela.
“Crede-me:
eu estou no Pai e o Pai em mim.
Crede-o, ao menos, por causa dessas obras”.
(Jo 14, 11). Sem adentrar muito nos diversos questionamentos teológicos que este versículo propõe, ficaremos naquilo que ele sugere a primeira vista, a saber, que Jesus aos poucos tomar consciência da sua missão e sobre quem o incumbiu para.

Nestes dois exemplos não encontramos uma explicação “justificacionistas” de Deus; estes personagens que aí aparecem, a saber, Moisés, Aarão e Jesus sabem do que estão falando e porque estão agindo deste modo. Somente um buscar Deus no cotidiano da nossa existencial conseguiremos nos envolver com um Deus que está além da emoção e dos pios afetos propostos por essa sociedade sensacionalista. O grande risco que essa sociedade apresenta é o de transformar o Deus de Jesus Cristo num espetáculo, onde o mistério desaparece e o nosso EU aparece gratificando-se com lágrimas e gritos emocionais. Fé não pode ser compreendida como sentimento, é encontro. Não podemos pensar Deus fora do mundo factual, mesmo que, às vezes, preferimos fugir dele. A grande tentação do Cristão é querer buscar soluções fora do mundo circundante.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O amor é força criativa

Frei Maximiliano Maria Kolbe, franciscano conventual da Polônia, prisioneiro na Segunda Grande Guerra Mundial, no campo de concentração de Auschwitz, foi o sinal do amor no inferno de ódio. Costumamos chamá-lo, com o papa João Paulo II, de “o padroeiro deste século difícil”. Franciscano atual por seu empenho na evangelização, utilizava dos melhores maquinários de imprensa de seu tempo para a difusão da devoção à Imaculada, enquanto para si dividia um sapato com outro confrade: “Consagrar o mundo inteiro a Cristo pela Imaculada”, é hoje o tema inspirador de pessoas dos meios de comunicação, que no Brasil também encontraram inspiração em Maximiliano para anunciar o Evangelho.
Quando estava preso no campo de concentração, todos se impressionavam com a presença de espírito de Kolbe comunicando esperança e a presença de Deus que parecia esquecido. Enquanto os mais desesperados pensavam somente em “cada um por si”, este frei queria partilhar do pouco alimento que ganhavam, sendo certas vezes obrigado por outros a se alimentar.
A troca que Kolbe propôs, quando do preso que havia fugido e um pai de família havia sido condenado à morte no lugar daquele, foi o desfecho de um trabalho interior de “quando o indivíduo joga tudo fora pela pérola de maior preço e se torna um com Deus, então – como grande rio silencioso oculto sob o fio d’água visível no leito de areia – sob as preocupações reais e os cuidados de cada dia, como disse o próprio Kolbe, há paz e alegria inexprimíveis.”[1] E todos se sentem também dentro do mesmo espírito.
Ele ensinava para seus confrades: “Deus é amor e, como o resultado deve ter semelhança com a causa, tudo que foi criado vive de amor. Não só ao buscar nosso último fim, mas também em toda ação e todo momento do dia, a principal força motivadora deve ser – o amor”.[2] O contrário do amor não é somente o ódio mas a indiferença que, como afirmou Kolbe, “é em nossos tempos uma doença quase epidêmica, que se propaga de diversas formas.”[3] Quando em 1941, no dia 14 de agosto, Maximiliano, após duas semanas no bunker da fome, ainda vivo, recebe uma injeção letal de ácido fênico e é incinerado inesperadamente no dia da festa da Assunção de Maria, constatamos o verdadeiro sentido da vida cristã: dar a vida gratuitamente em serviço do humano, especialmente onde a injustiça é a força motivadora. Em uma de suas meditações, no dia 31 de dezembro de 1917, escreve: “Ama! Isso é tudo.”[4] Ainda, em outra meditação do dia 4 de fevereiro de 1918 afirma que “o maior inimigo do amor de Deus é o amor próprio”[5], ou seja, a referência do amor não somos nós, mas o amor como deve ser vivido em Cristo. Por isso, rezemos ao nosso irmão:

“São Maximiliano Kolbe, cavaleiro da Imaculada, apóstolo do bem e da paz neste século difícil, verdadeiro frade menor, lembrai-vos que não há maior amor do que a vida pelos irmãos.”

Muito poderia ser escrito sobre São Maximiliano, mas fiquemos com esse pouco.
____________________________
[1] TREECE, Patrícia. Maximiliano, o santo de Auchwitz: testemunhos daqueles que o conheceram. Santo André: Edições da Imaculada. p. 152. 1996
[2] Id. Ibidem. p. 162.
[3] Ofício das Leituras, Próprio da Família Franciscana do Brasil. Petrópolis: Vozes/FFB. p. 225. 1999
[4] Centro Internazionale Milizia dell’Immacolata, Escritos de San Maximiliano M. Kolbe. Roma. p. 1638. 2003
[5] Id. Ibidem. p. 1639

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A claridade que faz melhor

Celebramos hoje o dia da querida mãe Santa Clara. Nascida em Assis, por volta de 1194, essa mulher ainda é para nós luz e esperança. Essa grande personagem da história humana se auto-denominava plantinha do pai Francisco, sabendo que em seu coração guardava também a herança advinda da vida do pobre de Assis.
Assim que entrou para o grupo dos Penitentes se dirigiu ao abscôndito do silêncio na oração, no cultivo da altíssima pobreza, para no encontro pessoal e íntimo com o esposo Jesus, no seio da Igreja, gritar ao mundo a existência de Deus. Muitas foram as que a seguira na mesma vida de reclusão, como sua irmã Inês e um tempo depois a outra irmã Beatriz e a mãe Hortolona, esta “que devia dar a luz a planta frutífera no jardim da Igreja, também era rica de não poucos frutos” (LegCl 1, 9).

As então chamadas Damas Pobres, atualmente Clarissas, ainda hoje vigorosas no mesmo empenho de Clara, são sinais do caminho certo para Deus em sua forma de vida simples e alegre. No olhar e nos gestos demonstram o que é importante na vida e que uma só coisa é necessária.
Como expõe com espanto o frei José Carlos Correa Pedroso ofm cap, é muito interessante a recomendação de si mesmo que o Cardeal Hugolino, nos seus quase 80 anos, faz numa carta, em 1220, dirigida à jovem Clara de aproximadamente 26 anos: “À caríssima irmã em Cristo e mãe de sua salvação, dona Clara, serva de Cristo, Hugolino, ostiense, indigno e pecador, recomenda-se em tudo o que é e pode ser. ... Entrego-lhe minha alma e lhe recomendo meu espírito, para que, como Jesus entregou o espírito a seu Pai na Cruz, você também responda por mim no dia do juízo, se não tiver sido solícita e atenta por minha salvação. Estou certo de que conseguirá do sumo Juiz tudo que pedir com insistência de tanta devoção e abundância de lágrimas.”[1] Nesta carta podemos constatar para nós que a experiência de Deus não encontra barreiras nem de idade, condição social, cultura, ou qualquer outro tipo de coisa. Deus se oferece gratuitamente a todos. A história de Deus se faz em nossa história de vida também.
Muito se poderia dizer da espiritualidade de Clara, mas é admirável em seus escritos seu profundo atilamento espiritual, especialmente ao se referir a seu esposo íntimo. Vejamos, “a modo de conclusão”, esta passagem da Quarta Carta a Santa Inês de Praga: “... você desposou de modo maravilhoso o Cordeiro imaculado que tira o pecado do mundo, deixando todas as vaidades desta terra. Feliz, decerto, é você, que pode participar desse banquete sagrado para unir-se com todas as fibras do coração àquele cuja beleza todos os batalhões bem-aventurados dos céus admiram sem cessar, cuja afeição apaixona, cuja contemplação restaura, cuja bondade nos sacia, cuja suavidade preenche, cuja lembrança ilumina suavemente, cujo perfume dará vida aos mortos, cuja visão gloriosa tornará felizes todos os cidadãos da celeste Jerusalém, pois é o esplendor da glória eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem mancha.”[2]
MDT
____________________________
[1] PEDROSO, frei José Carlos Correa. Fontes Clarianas. Petrópolis: Cefepal. 1994. p 9. 3ª ed.
[2] Id ibidem p. 211
Imagem de Santa Clara: http://cantodapaz.com.br/

domingo, 9 de agosto de 2009

A PERGUNTA POR DEUS

Na história da humanidade, o homem sempre se questionou e se deixou influenciar pela idéia[1] de que exista uma força capaz de ter criado a tudo e que ao mesmo tempo comandava toda a realidade. Nas diversas culturas humanas a idéia desta força superior se faz presente, mesmo naquelas culturas religiosas que veneram os elementos visíveis como o sol, a lua, ídolos, entre outros. Assim, torna-se evidente para todos nós que o fenômeno religioso sempre vem acompanhado da busca desta força superior algumas vezes visível, mas inalcançável e invensível. “Trata-se de uma inquietude que emerge em formas distintas nos momentos cruciais da humanidade, quando percebe mais profundamente a necessidade de sentido e cobra consciência do irreversível”.[2]
Podemos agora colocar a questão: por que o ser humano se inquieta tanto a ponto de querer afirmar a existência de um deus [3]? Mas, acima de tudo, podemos afirmar a necessidade do homem de tantas vezes explicar a realidade e também de justificar o porquê de tantas coisas e ainda mais buscar refúgio para suas necessidades querendo que essa força superior atenda os seus pedidos. Juan de Sahagún Lucas afirma que “as diferentes afirmações sobre Deus revestem então o caráter de aproximações graduais e complementárias a uma instância ou entidade misteriosa que confere sentido pleno a existência humana e fixa o destino da história”[4]. Dessa forma, a pergunta sobre deus quer ser uma afirmação sobre sua existência na medida em que busca sentido pleno da vida.
É verdade também que a pergunta por deus é também uma busca, porque essa idéia de uma força superior existe na história, nos antepassados, ou seja, constitui uma idéia que recebemos, que são passadas depois para cada nova geração. Por isso, perguntar-se é antes querer fazer a experiência[5] da divindade. Portanto, podemos afirmar com Juan Lucas que a pergunta sobre a idéia de uma força maior “não parte da ignorância total, mas de um conhecimento inicial imperfeito que deseja completar até o limite de suas possibilidades”[6].
Historicamente, a idéia sobre deus aparece a partir de uma insatisfação que inquieta o humano e o faz buscar uma realidade sem defeitos, absoluta e que seja fundamento de tudo e torna-se uma meta que plenifique a sua vida[7]. Por isso, se na história a idéia de deus se apresenta como uma concepção preenchida de condicionamentos epocais, temos que ao longo do estudo também levar em consideração os acontecimentos de cada período histórico para podemos discernir sobre idéias afins de deus. “Daí a necessidade de distinguir entre o contexto tradicional e o atual no fundamento da questão de Deus[8].
O problema religioso se funda, antes de tudo, em uma experiência do sagrado, que se radica no indivíduo humano, embora fique condicionada na sua manifestação exterior às estruturas do grupo social em que o indivíduo se insere. Esta experiência pode ter no indivíduo maior ou menor intensidade, maior ou menor clareza, maior ou menor dinamismo, segundo a disposição psicológica de cada um. De acordo com estas disposições individuais, ele atua no grupo social acentuando suas tendências ou modificando-as como no caso dos grandes reformadores como Moisés, Jesus, Maomé e etc.
A vida humana, estendida entre seu nascimento e morte e determinada pela lembrança e expectativa, tem uma constituição essencialmente temporal. A própria experiência de Deus e seu conhecimento são transmitidos a nós seres humanos em termos históricos, e somente nestes termos históricos é que podem ser transmitidos[9]
Sem deixar de lado a objetividade e o valor da pergunta sobre deus, o que interessa neste momento é a questão de quem parte a pergunta sobre a divindade em cada período histórico, especialmente hoje, num horizonte de mundo no qual o homem tem trabalhado incansavelmente para desvendar seus mistérios[10] e coloca deus como uma hipótese de trabalho. “Cria, assim, um mundo tecnificado, cujas características principais são profanidade e o propósito intencionado de compreender-se a si mesmo e ao mundo que o rodeia prescindindo do metaempírico e transcendental”[11].
_______________________
[1] Será adotado o termo “idéia” em vez de “fé” para que não precisemos abordar sobre essa questão que não é conveniente agora.
[2] LUCAS, Juan de Sahagún. Dios, horizonte Del hombre. Madrid: Biblioteca de los autores cristianos. Sapiência Fidei: serie de Manuales de Teologia 2003. p. 3
[3] Não utilizo o termo deus em maiúsculo por não se referir a uma divindade específica de uma religião, mas no sentido genérico.
[4] LUCAS, 2003, p. 03
[5] A discussão sobre a questão da experiência da divindade não é para nós importante nesta postagem.
[6] LUCAS, 2003. p. 05
[7] cf. LUCAS, 2003, p. 05
[8]LUCAS, 2003, p. 03
[9]SCHNEIDER, Theodor (org.) Manual de Dogmática. Petrópoles: Vozes, 2002 v. I, 2ª ed, p. 53
[10] cf. LUCAS, 2003, p. 03
[11] id. Ibid, p. 06
MDT
Imagem: http://artedartes.blogspot.com/

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Vocação, entre o querer e o dever. A liberdade como direito e obrigação do humano

Todo ser humano é um ser de desejos, projetos, planos, perspectivas, esperanças. A história humana se constrói a partir destes âmbitos primordiais. Mesmo quando houveram tragédias devido ao uso indevido destes dons, ainda assim não podemos deixar de nos admirar de dons tão magníficos. Mesmo que durante a vida alguém deixe de lado estas características, sempre acontecerão lampejos de querer que impulsionam e fazem crescer a si mesmo interiormente e todo o conjunto da sociedade humana. Isso tudo nada mais é do que o querer de Deus que nos ama assim e não de outro jeito.

Toda vocação imprime em si uma missão, que está orientada para o bem comum, caso contrário implicará em grave falha social. O grande especialista neste assunto, José Lisboa Moreira de Oliveira faz coro nesta certeza asseverando que “a vocação é, pois, o chamado de Deus dirigido a toda pessoa humana, seja em particular, seja em grupo, em vista da realização de uma missão ou serviço em favor da comunidade. Como tal atinge todos os seres humanos, pois todos e todas são convocados por Deus (...).”* Entrementes, toda vocação tem que responder a uma realidade externa que lhe é imprescindível, ou seja, sem uma real maximização (difusão) de suas ações para a repercussão de atos essencialmente possibilitadores concretos da vida em plenitude, a que todas as pessoas se destinam, não encontraremos uma organização social que torne vigente a distribuição igualitária dos dons recebidos.

O querer pessoal vem acompanhado do dever, da obrigação, o que nos faz acreditar que em tudo o que almejamos estaremos submissos às reais implicações das escolhas, pelo justo compreender e saber que não é a pessoa a criadora da vocação, senão Deus mesmo que concede. A iniciativa de chamar é de Deus e nós entramos nessa dinâmica respondendo de acordo com nossa liberdade (cf. Lisboa). Entender a vocação como encontro de duas liberdades que dialogam e, além do mais, dispor a liberdade no âmbito do direito pessoal e comunitário e também situá-la na linha do dever, muda nossa perspectiva de visão básica e corriqueira. O dever da liberdade foi sendo esquecido de acordo com o abuso que dela foi sendo efetuada. No Iluminismo, com a super exaltação da razão como luz e deus do homem (chegando ao ponto baixo de discriminar, denominando outros períodos de Idades das Trevas, como a Idade Média que se assentava sobre o alicerce da fé), causando um abuso sem precedentes da liberdade humana entendida como “faça o que der na telha”.

A Liberdade é o cerne mais fundamental da pessoa humana, por que é o que Deus nos concedeu de si mesmo. A nossa liberdade é a assinatura de Deus na criação toda.
MDT
___________________________
*OLIVEIRA, José Lisboa Moreira de. Teologia da vocação: temas fundamentais. São Paulo: IPV/Loyola. 1999
Imagem: https://vaerza.blu.livefilestore.com/